O mundo da corrupção

            MUITOS brasileiros, especialmente aqueles mais afetados pelo famoso “complexo de vira-lata”, têm a mania de dizer por aí que o Brasil é um país de corruptos, que a corrupção aqui é pandêmica e está fora de controle, que a fraude e o suborno já fazem parte da nossa cultura política como se fossem um traço indelével, uma fatalidade antropológica que constitui os nossos hábitos e costumes. Dessa forma, concluem esses brasileiros aparentemente indignados, o Brasil não tem mais jeito, é mesmo o “país da propina e da corrupção”.

          Claro que as baterias e as acusações desses patriotas “indignados” se voltam quase que exclusivamente para o setor público, e mais precisamente para os políticos, provocando um desânimo geral com a política e uma desconfiança profunda em relação a tudo que diz respeito ao Estado. Esses “indignados” não costumam enxergar a corrupção do setor privado nem dos agentes privados que corrompem o setor público, esquecendo-se que não há corrupto sem corruptor.

         E vidente que há, sim, muita corrupção política no Brasil, mas isso não deve ser atribuído ao “caráter do brasileiro” nem à nossa incapacidade de fazer política. Um moralismo tosco, como esse que a grande mídia brasileira costuma insuflar, acaba chegando a tais conclusões distorcidas, completamente ingênuas, claramente injustas e muito úteis àqueles que condenam mas não desejam combater as causas reais da corrupção.

         Todo moralismo, sobretudo o moralismo político, costuma ser estúpido e muitas vezes é também fascista. É estúpido porque não dispõe de mecanismos racionais e serenos para distinguir entre os bons e os maus políticos, por isso, vai logo colocando todo mundo na vala comum dos culpados. É fascista porque costuma descambar para o punitivismo autoritário e para a intolerância, descartando a política que é, como todos sabem, o meio mais civilizado para resolver conflitos de massas nas sociedades contemporâneas.

       Por isso, é preciso tomar cuidado com esses “paladinos da moralidade” que desenvolvem uma estranha fúria punitiva contra todos os políticos e contra toda a política sem perceber que a alternativa é a ditadura e o despotismo. É preciso desmistificar o discurso moralista e hipócrita daqueles que atribuem a corrupção política no Brasil ao “caráter degenerado da gente brasileira”, à nossa inferioridade e ao nosso atraso que, dizem, nos fazem ignorar os mais elementares princípios da ética política.

             É óbvio que a corrupção no Brasil não decorre de um suposto “caráter degenerado dos brasileiros”, nem da nossa hipotética “frouxidão moral”. A corrupção política no Brasil contemporâneo parece ter duas causas muito poderosas, uma de natureza geral, que ameaça a política e a democracia no mundo todo; e outra de caráter específico, que é própria do nosso sistema político especialmente permeável às práticas corruptíveis.

           A causa geral da corrupção política é a insuficiência da democracia representativa que sucumbiu às imposições do mercado e hoje representa muito mais os interesses de grupos econômicos do que, propriamente, os interesses gerais da maioria do povo. Os partidos políticos perderam a capacidade de construir e organizar o consenso na sociedade, perderam a representação popular e entregaram essas tarefas aos grupos econômicos que acabaram dominando o espaço público, ou seja, acabaram “confiscando” o espaço da política.

           A causa específica da corrupção no Brasil repousa basicamente em três pontos do nosso modelo político. Isto é, reside num sistema pluripartidário sem rumo ideológico que favorece a promiscuidade dos interesses; no financiamento privado de campanha que propicia o abuso do poder econômico e o  “toma lá, dá cá” em benefício das empresas financiadoras dos candidatos; bem como no chamado “presidencialismo de coalizão” (um arremedo de parlamentarismo) que obriga o presidente da república a formar maiorias no Congresso Nacional para implementar seu plano de governo, construindo as tais “bases parlamentares” mediante “concessões de cargos” ou “recompensas financeiras”.

          Está claro que há corrupção no Brasil, mas ela não decorre do nosso “espírito malsão” nem do nosso primitivismo ético-político. Note-se que uma pesquisa da Comissão de Combate à Corrupção do Parlamento Europeu, realizada em 2013, concluiu que a corrupção representa um prejuízo de 180 bilhões (é “bi”, mesmo) de euros anuais para os países do Mercado Comum Europeu, e descobriu também que 69% das empresas europeias acham que o suborno é o caminho mais fácil para conseguir contratos com o poder público.

             Corrupção, portanto, não é uma “especialidade” nem um “privilégio” do Brasil e dos brasileiros. Parece que ela está fortemente ligada à predominância do mercado e do mercantilismo sobre o espaço político; parece que a corrupção é sistêmica e inerente às sociedades capitalistas de mercado. Há qualquer coisa de podre nessa relação íntima entre empresários e políticos! Desconfio que o capitalismo, que não vive sem guerra e sem exploração humana, também não conseguiria sobreviver sem corrupção – nem aqui nem no Primeiro Mundo.

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