Essas proezas do lulismo!

       SERÁ preciso ainda algum tempo para entender e explicar direito o que foi o fenômeno político que se convencionou chamar de “lulismo”. Na verdade, os brasileiros precisarão de um certo recuo histórico para compreender o que foi o “governo Lula”, bem como o que terá sido o próprio Lula na história do Brasil – primeiro político oriundo da classe trabalhadora a presidir um país que sempre foi governado pela elite e seus representantes.

      De fato, compreender o “lulismo” é um verdadeiro desafio, tamanhas as suas ambiguidades, contradições, arranjos e… sucesso. Não se pode negar que o ex-presidente Lula conseguiu combinar “ordem e mudança”, aumento da riqueza e diminuição da pobreza, crescimento econômico e justiça social como ninguém, uma curiosa conciliação de classes, “como nunca antes se viu na história deste país”.

             Os analistas estão mais ou menos de acordo em que o “lulismo” conseguiu a proeza de promover um espantoso crescimento econômico, que elevou o PIB do Brasil de 500 bilhões para 2 trilhões e 500 bilhões de dólares (cinco vezes), com uma espantosa distribuição de renda, que promoveu a ascensão social de mais de 40 milhões de brasileiros em apenas oito anos de mandato.

            E foi assim que Lula governou para os ricos e para os pobres, para a direita e para a esquerda, promovendo um “reformismo fraco” (André Singer) que mudou a vida de muitos brasileiros sem mudar a ordem vigente. Conseguiu a proeza de ser progressista e conservador ao mesmo tempo. Daí as ambiguidades e contradições do “lulismo”, daí a complexidade desse fenômeno que está ainda por ser entendido.

         Dois exemplos são emblemáticos: (1) o “lulismo” estancou o desmonte do Estado promovido pelo seu antecessor, que privatizou 76% das empresas públicas, mas o “lulismo” não avançou em nada nas reformas estruturais como, por exemplo, a reforma agrária; (2) o capital financeiro continuou ganhando muito sob o governo Lula, mas a política de vincular o salário mínimo à inflação e ao PIB possibilitou uma melhor distribuição de renda com impacto relevante na desigualdade social do país.

            Ao governar para a direita e para a esquerda, o “lulismo” acabou se apropriando do discurso, dos projetos e dos programas de uma e de outra. Isso provocou uma desorientação ideológica e programática nos adversários de Lula mais à direita, pois estes ficaram sem discurso e tiveram de ratificar os programas do “lulismo”, tanto na área econômica, para dar garantias ao mercado, quanto na área social, para atender às demandas das classes populares.

       Em suma, o “lulismo” conseguiu a façanha de promover distribuição de renda, diminuir a desigualdade social e combater com eficácia a pobreza monetária (absoluta) de 20 milhões de brasileiros, mas fez tudo isso sem prejudicar os ganhos do capital financeiro, do agronegócio e das empresas transnacionais. Isso foi talvez a mais bem-sucedida conciliação entre os interesses da classe dominante e as aspirações das classes de baixo, com possibilidades de avanços reais na área socioeconômica.

         Porém, a proeza mais esquisita do “lulismo”, que nem o próprio Lula esperava, foi varrer da disputa presidencial em 2014 seu maior partido opositor (PSDB), autêntico representante da direita nos últimos 20 anos, para assistir à disputa entre duas mulheres com origem na esquerda – Dilma e Marina. Ninguém esperava que um dia a sociedade brasileira teria de escolher entre duas “crias” do Lula, isto é, duas candidatas projetadas no cenário nacional exatamente pelo “lulismo”.

          Cá entre nós, é muita desgraça para a direita e para os setores mais reacionários da sociedade brasileira! Tem sido muito divertido ver, sobretudo nas mídias, a desorientação, a insegurança, a cautela e o desalento dos extratos mais conservadores da sociedade que desejam derrotar uma “cria” do Lula (Dilma) mas, para tanto, têm de recorrer a outra “cria” do mesmo Lula (Marina).

             Esse “lulismo” apronta cada uma!

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