Quem sabe votar?

        EM CERTO momento da ditadura militar no Brasil, mais exatamente quando os ditadores resolveram suspender as eleições diretas no país, o jogador Pelé, questionado sobre essa decisão dos militares, saiu-se com uma frase polêmica que ficou bastante famosa e serviu para justificar a omissão, a conivência ou mesmo a própria alienação política desse grande ídolo do futebol mundial.

         O jogador brasileiro não viu maiores problemas na suspensão das eleições diretas porque, segundo ele, “brasileiro não sabe votar”. E até hoje há muita gente que repete isso, que insiste em dizer que o povo brasileiro é ignorante demais e que, por isso, não sabe mesmo escolher seus governantes. Em tempos de eleições, essa polêmica costuma ressurgir, sobretudo entre aqueles que se julgam inteiramente preparados para exercer o que costumam chamar de “direito sagrado do voto”.

            As elites e a classe média brasileiras, por exemplo, estão absolutamente convencidas de que os extratos inferiores da sociedade, isto é, aquilo que eles chamam de “povão”, sempre foram “massa de manobra” dos candidatos populistas. As classes subalternas seriam o “lumpesinato” que não sabe votar, pois não têm escolaridade suficiente, são muito mal-informadas, têm pouca ou nenhuma consciência política, e muitas vezes chegam até mesmo a “vender” o próprio voto ou trocá-lo por qualquer coisa.

       Isso tudo até pode ser verdade, mas, antes de assumir como verdadeiras essas afirmações claramente elitistas, talvez fosse interessante levantar algumas questões bem intrigantes: Onde é que as elites e a classe média do Brasil aprenderam a votar? Onde é que elas adquiriram tamanha consciência política? Onde obtiveram tanta informação, segura e confiável, a ponto de se transformarem nos “iluminados” que sabem realmente escolher os seus e os nossos governantes?

           Decerto que não foi nos bancos das escolas brasileiras, onde se pratica um ensino (do fundamental ao ensino superior) notoriamente despolitizado, e onde se difunde um conhecimento politicamente alienante. Decerto que não “aprenderam” a votar com base nas informações fornecidas por uma imprensa conservadora, corporativa, partidária e especializada muito mais na “arte de convencer” e manipular opiniões do que no ofício de bem informar a população, com imparcialidade e independência. Certamente que não foi também na “militância política”, porque essas classes têm verdadeiro horror a qualquer militância que queira promover mudanças no país.

            Onde, então, que as “classes superiores e politicamente esclarecidas” aprenderam a votar?, e de onde tiraram toda essa arrogância pra dizer que o “povão” é ignorante e não sabe escolher seus representantes políticos? Parece que a alienação política é mesmo um fenômeno muito “democrático”, pois atinge indistintamente todas as classes, a ponto de umas se acharem especialmente “iluminadas”, suficientemente bem informadas e prontas para exercitar o direito de voto com plena lucidez e consciência política.

          Em tempos de globalização econômica, produtiva, informacional e financeira; em tempos de regionalização econômica do globo e de complicadíssimas disputas geopolíticas; em tempos de disputa entre capital produtivo e rentismo financeiro; em tempos de revisão do papel do Estado e de crise do modelo neoliberal; em tempos de expansão imperialista e de resistência dos países periféricos; em tempos de crescimento global da desigualdade e de formulação de novas políticas sociais e econômicas de combate à pobreza, enfim, em tempos de tanta complexidade, pergunta-se: de onde será que essa “classezinha ilustrada”, e cheia de si, tirou toda essa lucidez, e toda essa certeza de que só ela sabe votar, só ela sabe o que é melhor para o Brasil, só ela sabe quem deve governar o país?

          É difícil saber quais são os motivos que levam alguém a escolher este ou aquele candidato. Muitos fatores interferem nessa escolha, sobretudo, os fatores ideológicos, as experiências pessoais, os valores e a visão de mundo, a posição e a situação de classe, as origens familiares, as necessidades, os ódios e preconceitos, enfim, é muita pretensão entender o processo que define as opções dos eleitores, e é mais pretensioso ainda acusar toda uma classe de não saber votar.

       Dificilmente as “classes superiores” votam contra seus próprios interesses privatísticos. Dificilmente essas classes põem sua suposta “consciência política”, seu pretenso “espírito cívico” e seu “elevado conhecimento” acima dos próprios interesses classísticos e das suas próprias conveniências. Essas classes que têm muito (elite) e as que têm o suficiente (classe média) costumam olhar apenas para o próprio umbigo quando fazem suas opções políticas! É isso que é “saber votar”? É isso que é ter discernimento na hora de escolher os governantes de um país?

            Se for assim, se for para votar com esses critérios egoísticos e autorreferenciados, então é melhor escolher os governantes de acordo com os interesses e as conveniências das classes subalternas, pois, em países que têm níveis intoleráveis de desigualdades e injustiças sociais como é o caso do Brasil, as opções de voto tendo em vista os interesses, urgências e necessidades das classes de baixo são opções mais justas, mais éticas, mais legítimas e mais necessárias – talvez até opções mais lúcidas.

            Os critérios da necessidade material, da igualdade real e da justa distribuição social, são exatamente os critérios que têm orientado cada vez mais o “voto do povão”, sobretudo depois que esse “povão” descobriu que aquilo que é bom para os de cima quase nunca é bom para os de baixo, provocando uma crescente polarização das eleições presidenciais no Brasil entre ricos e pobres. É por isso que as “castas superiores”, os “eleitores iluminados” e os cidadãos que se julgam “mais críticos e mais conscientes” tanto abominam… e tanto temem o tal “voto do povão”.

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Uma resposta para Quem sabe votar?

  1. Giovanny Pizzol disse:

    Um ótimo texto que ilustra a realidade da consciência eleitoral brasileira. Só que o grande problema não fica só no “em quem voto?”, mas em quem se candidata. Só se candidata a cargos altos(deputados, senadores, governadores e presidente) quem ou tem muito dinheiro para financiar a própria campanha, coisa que ainda não se viu nesse país, ou que faz uso de lobby e promessas de apoio a empresas porque horário na televisão nacional, rádio e folhetos não saem de graça. A maneira como se conhece os candidatos e a própria forma de se tornar um acabam sendo a forma pela qual não importa quantas eleições existam, sempre “os mesmos” estão por essas bandas…

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