O fracasso de Bretton Woods

          O MUNDO nunca mais foi o mesmo depois dos Acordos de Bretton Woods, assinados no final da Segunda Guerra Mundial em New Hampshire (1944), cujos objetivos pareciam ser a estabilização da ordem financeira internacional, a reconstrução dos países arrasados pela guerra, a formação de uma ordem financeira internacional homogênea, a ajuda financeira aos países em desenvolvimento, a generalização das políticas sugeridas pelo economista britânico John Maynard Keynes – e tudo isso para salvar o capitalismo mundial ameaçado pela Grande Depressão dos anos 1920/1930.

            Ficou acordado então que a moeda norte-americana substituiria o ouro como referência (lastro) de riqueza, e o dólar seria a moeda-padrão para a convertibilidade entre as nações signatárias dos acordos. Isso implicou naturalmente a “dolarização da economia mundial”, o protagonismo dos Estados Unidos no processo de organização do sistema financeiro, e a liderança norte-americana na direção da ordem econômico-financeira em todo o mundo capitalista.

            Não é exagero dizer, portanto, que a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas em Bretton Woods, reunindo mais de 730 delegados das 44 nações que se opuseram ao nazismo e o derrotaram, fundou realmente uma “nova ordem econômica global”. Mas, não será exagero dizer também que essa “nova ordem” consolidou, desde a Conferência de 1944, o imperialismo dos Estados Unidos, uma vez que idênticas pretensões imperialistas da Europa (Inglaterra e França) haviam submergido sob os escombros de duas Grandes Guerras Mundiais.

          Dos Acordos de Bretton Woods nasceram as instituições financeiras que hoje definem, impõem e monitoram os rumos da economia e das finanças em todo o globo. Nasceu ali, sob a liderança absoluta (e bélica) dos Estados Unidos da América, o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD), o qual deu origem aos atuais Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial.

               Os propósitos declarados de Bretton Woods eram mesmo a reconstrução de uma economia abalada por duas Grandes Guerras, a recuperação do capitalismo depois do crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929, a criação de uma ordem monetária e financeira estável, a dinamização do comércio entre as nações e o desenvolvimento global, inclusive, e, sobretudo, o desenvolvimento socioeconômico de países periféricos que poderiam seguir também o modelo keynesiano de desenvolvimento.

            Com o tempo, porém, viu-se que, em lugar de uma “ordem financeira global e estável” o que ocorreu foi a “financeirização e a recorrente instabilidade das economias capitalistas”; em lugar da “dinamização do comércio”, deu-se apenas a “expansão dos negócios e interesses dos países ricos”; em lugar do “desenvolvimento global”, consolidou-se a dependência e o endividamento dos países não desenvolvidos – como é o caso específico dos países latino-americanos. A dívida externa desses países com o FMI – que deveria financiar o desenvolvimento deles ou socorrê-los em caso de dificuldades -, a dívida com os bancos privados que integram o sistema financeiro internacional, aí incluídos os especuladores parasitas desse sistema (“fundos abutres”), é uma dívida incalculável, ilegal, injusta e, portanto, inexigível.

                De fato, as “cláusulas leoninas” dos contratos internacionais de empréstimos, que submetem uma parte ao jugo da outra; a prática proibida por lei do anatocismo (capitalização de juros no montante da dívida externa); aplicação de “juros flutuantes”; e a renegociação do débito mediante ameaça de sanções e embargos econômicos, impostos unilateralmente pelo contratante mais forte, não passariam sequer pela legislação financeira do Brasil – nem muito menos por um Código de Defesa do Consumidor como o nosso.

               Vejamos, passo a passo, em linguagem de leigo e sem “economês”, o mecanismo perverso da “dívida externa” do Brasil e de todos os outros países pobres, ou em desenvolvimento, que acreditaram no estelionato de Bretton Woods e correram para os braços do FMI: (1) o maior acionista desse banco são os Estados Unidos, com poder de veto; (2) o banco empresta dinheiro e os Estados Unidos (Federal Reserve) fixam e modificam unilateralmente as taxas de juros pactuadas; (3) esses juros são recapitalizados para formar o montante nominal da dívida, numa prática ilegal conhecida como “anatocismo” – a famosa “cobrança de juros sobre juros”.

               Depois, quando os países endividados não conseguem pagar suas dívidas – que aumentam como “bola de neve” -, os Estados Unidos ameaçam com os tais “embargos econômicos, financeiros ou comerciais”, até estrangular a economia já empobrecida dos devedores, obrigando-os a renegociar ou “reestruturar” suas dívidas externas. É nessas horas que sempre aparece uma agenciazinha picareta, geralmente norte-americana, para medir o tal “risco potencial de insolvência” ou a “credibilidade econômica” do país devedor!

       Na renegociação do débito, que agora os economistas têm chamado de “reestruturação” ou “realinhamento” das dívidas externas – justamente porque é impossível calcular o montante real dessas dívidas segundo as regras da contabilidade, segundo a lei e os princípios da moralidade -, prosseguem o estelionato e a violência que têm determinado o desemprego, a miséria, a dependência econômica e toda a sorte de injustiças sociais que afligem os países endividados.

                   Com efeito, na renegociação ou reajustamento das dívidas com o FMI (e com os credores privados que giram no seu entorno como varejeiras insaciáveis), explicava Celso Furtado, no seu indispensável ABC da dívida externa, os credores internacionais exigem “apenas” o seguinte: (1) a manutenção do valor nominal de seus ativos, (2) o pagamento do máximo de juros possível e (3) a capitalização dos juros remanescentes (juros sobre juros), com o que “o banco aumenta contabilmente os seus ativos e o país devedor, a sua dívida”.

                Para completar, o FMI exige que os países endividados façam “ajustes fiscais”, isto é, mantenham o equilíbrio de suas contas (superávit) a qualquer custo, ainda que para isso tenham de cortar gastos na educação, na moradia, saúde, saneamento básico etc., ou vender o próprio patrimônio por meio das “privatizações”. Justamente as privatizações que permitem a invasão das multinacionais, a desnacionalização e a desproteção da economia interna, o completo desmonte do Estado e a morte de qualquer sonho de soberania e independência dos países pobres.

               As empresas estrangeiras que adquirem o patrimônio nacional dos países que caíram no “conto neoliberal das privatizações”, como foi o caso do Brasil em passado recente, estão preocupadas apenas com seus lucros e com os dividendos de seus acionistas, remetidos para seus respectivos países de origem. Ao mandar lucros e dividendos pra fora do país, as empresas estrangeiras deixam de investir no crescimento das economias “privatizadas”, geram desemprego futuro e perpetuam a pobreza.

             Porém, alertava Celso Furtado, o dano maior causado pela dívida externa e o serviço dessa dívida, com todo o perverso processo de reajustamento imposto pelos credores, é “o esfacelamento do sistema de poder político” e a consequente perda de governabilidade por parte dos países devedores. Assim, não é preciso ser especialista para ver que as exigências do FMI e do capital financeiro internacional eternizam a crise econômica dos países em desenvolvimento, aprofundam suas dificuldades produtivas e o atraso tecnológico, impõem pesados sacrifícios a suas populações, impedem o desenvolvimento prometido por Bretton Woods e, portanto, mantêm a dependência das economias periféricas em relação aos países ricos.

                  No caso do Brasil, os serviços da dívida pública (interna e externa) consumem 45% do orçamento da União. É um disparate! Bem por isso que Celso furtado dizia que pra entender o Brasil, seu atraso e sua dependência econômica, era preciso, antes, entender o mecanismo da dívida externa – que começou lá com Bretton Woods. Pode-se concluir, então, que o entendimento do mecanismo dessa dívida é indispensável, não só para entender o atraso econômico do país, mas também para o exercício consciente (e consequente) da cidadania.

               (Notem, por exemplo, o que acaba de ocorrer com a Argentina. Se a simples decisão de um juiz de direito pode “quebrar” um país inteiro, impor sacrifícios a todo o povo desse país e a suas futuras gerações, é porque algo está errado – muito errado. A decisão de um juiz de Nova Iorque, que bloqueou o valor de 539 milhões de dólares depositados pela Argentina no Bank of New York Mellon para o pagamento de seus credores internacionais – muitos deles chamados sugestivamente de “credores abutres” -, é um exemplo da vulnerabilidade das economias periféricas – e tudo isso por causa da famigerada dívida externa.)

                Mas, o pior desse drama todo, o que mais revolta, é saber que a exploração do povo latino-americano é feita com a aliança e a conivência histórica de nossas elites, com a omissão dos representantes do povo (Congresso Nacional), e com o silêncio interesseiro dos meios de comunicação de massas. É isso mesmo: exploração feita em parceria com uma elite nacional que tem seus interesses entrelaçados ao capital estrangeiro, apoiada por representantes políticos e intelectuais apátridas, sob a cumplicidade de uma mídia financiada por grandes corporações econômicas multinacionais. Exatamente essa mídia que tem coragem de chamar os países latino-americanos de “caloteiros”, mas não tem peito pra chamar os “credores abutres” e o FMI de “agiotas”.

              O completo fracasso de Bretton Woods, com o surgimento de uma nova ordem econômica multilateral e realmente democrática, parece certo, tanto mais depois que o FMI não conseguiu socorrer nem os países da Europa (Espanha, Portugal e Grécia); depois que a Comunidade Econômica Europeia se consolidou de vez; depois da crescente integração sul, caribenha e latino-americana (Mercosul, Banco do Sul, Celac etc.); depois da nova e bem-sucedida articulação mercantil entre América Latina, África, Ásia e Europa Oriental; e, por que não?, depois da incipiente mas sintomática fundação do chamado NBD – o Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics.

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3 respostas para O fracasso de Bretton Woods

  1. Balatore disse:

    Compensou muito ter visitado este blog! Achei bem interessante o nível de problematização e de exposição. Parabéns pelo texto!

  2. Maria del Carmen Termignoni disse:

    Agradeço aos advogados pela explicação mais leiga para nosso entendimento. É de ficar sem folego!

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