Terrorismo econômico

            ESTAMOS vendo diariamente nas folhas e nas mídias que a economia brasileira vai de mal a pior. Os sintomas ou aspectos negativos apontados pelos nossos especialistas, com uma insistência bastante curiosa, são basicamente dois: a inflação cada vez mais alta e o crescimento econômico cada vez mais baixo, este último apelidado pelos “entendidos” de “pibinho”.

          Essa mesma mídia é unânime em atribuir o mau desempenho da economia brasileira exclusivamente ao governo federal e sua “equivocada política econômica”, ou “macroeconomia atabalhoada”. Ninguém, absolutamente ninguém, atribui qualquer responsabilidade pelo fracasso econômico aos setores privados da produção, aos agentes de mercado, ao capital produtivo que são, na verdade, os que fazem o crescimento econômico e influenciam a estabilização monetária.

          Nós, pobres mortais, que não entendemos de economia nem conseguimos decifrar o “economês” dos especialistas, ficamos à mercê de um jornalismo supostamente especializado que mistura um punhado de conceitos básicos de economia com alguns dados concretos da realidade econômica, tira suas conclusões subjetivas, exercita uma lotérica capacidade de explicar o futuro econômico do país (quase sempre catastrófico), e adiciona a tudo isso aquela conhecida ponta de ironia e de erudição que impressiona a maioria dos leitores e ouvintes.

      Podem conferir, o bombardeio é diário. A todo momento sempre haverá uma reportagem, um editorial, um artigo ou ensaio reafirmando que a economia brasileira está a ponto de mergulhar no caos, insistindo em que os sinais dessa fatalidade inevitável são a inflação crescente e o tal “pibinho” decrescente. Logo após uma enrolada análise técnica da macroeconomia, vem sempre a afirmação genérica, difusa e abstrata de que tudo isso se deve aos “equívocos da política econômica do governo federal”.

         Mas, quais “equívocos” são esses se a política econômica do governo não mudou em nada nesta última década? De que equívocos estão falando se a economia brasileira e o PIB nacional cresceram em média mais de 4,5% nos últimos anos? Que “equívocos” são esses se o Brasil vive uma situação de pleno emprego, com crescimento baixo, porém, superior ao crescimento dos EUA neste primeiro trimestre de 2014? Qual é o equívoco se o PIB brasileiro quadruplicou, alcançando a posição de 7ª economia do mundo, e se o balanço de pagamentos neste mês de junho de 2014 fechou com superávit de 3,9 bilhões de dólares no estoque de divisas?

         Quando tentam explicar a “inflação crescente” e o tal do “pibinho decrescente”, as conclusões utilizam sempre aquele argumento indeterminado, genérico, difuso e confuso: “São os equívocos do governo”. Imaginem que outro dia um desses especialistas midiáticos, que se consideram talvez discípulos iluminados de Adam Smith, chegou a atribuir toda a “bancarrota” e o caos iminente (pra eles inevitável) da economia brasileira ao congelamento dos preços de combustíveis e de energia elétrica! Pode?

           Ninguém haverá de negar que hoje o Brasil está crescendo menos do que crescia na década passada. Mas, isso vem ocorrendo em todo o mundo capitalista. São talvez as crises cíclicas e estruturais do capitalismo (previstas por Marx há um século e meio), cujas contradições já deixaram muito claro que não é possível crescer sempre – todo mundo, ao mesmo tempo e o tempo todo.

       Como os especialistas não têm uma explicação clara e convincente para o caos econômico que anunciam, acabaram atribuindo o anunciado “descalabro” da economia brasileira à “desconfiança e ao mau humor dos empresários”. Haja paciência! Assim, quando não culpam apenas o governo, quando não acham a explicação consistente para suas conclusões catastróficas, os “entendidos” atribuem a suposta debacle da nossa economia, pasmem!, aos “humores da burguesia empresarial”.

             Mas, como assim? Por que esse mau humor todo se os investimentos do governo na infraestrutura (PAC); os incentivos fiscais das “bolsas-empresário”; a política cambial flexível; a política de juros com taxa básica mantida nos mesmos 11%; a expansão do crédito e a sóbria política monetária continuam tal e qual nos anos anteriores, como  nos tempos em que a economia do Brasil crescia a todo vapor? Quem explica, portanto, esse mau humor dos especialistas que atribuem o mau desempenho da economia brasileira ao mau humor dos empresários? Trata-se de simples “transtorno de humor”, frescura burguesa ou manobra eleitoral?

          São visíveis os esforços de uma certa mídia alarmista visando disseminar o medo e a desconfiança na economia brasileira. É isso mesmo, podem prestar atenção: há uma cantilena enjoativa dizendo que tudo vai mal na economia do país, sem apontar os motivos, sem dizer exatamente por quê. Essa história é bem esquisita. E o pior é que os “entendidos” não parecem nem um pouco preocupados em esclarecê-la, não conseguem ou não podem fazê-lo com honestidade e sem “terrorismo econômico”.

     Ainda agora, nessa linha do “terror econômico”, um grande banco estrangeiro (Santander) passou um comunicado por escrito a seus clientes endinheirados (esses do capital especulativo-parasita que jogam diariamente no cassino financeiro!) informando-os que o crescimento da presidenta Dilma Rousseff nas pesquisas eleitorais resultaria inevitavelmente na alta do dólar, na desvalorização cambial e na queda das bolsas.

         Como o governo brasileiro arrepiou e exigiu explicações, o banco espanhol (que recentemente aprofundou ainda mais a desnacionalização do nosso sistema financeiro) pediu desculpas à sua clientela e à presidenta da República, desmentiu-se pública e descaradamente, declarou sua confiança no crescimento econômico do Brasil e até revelou a demissão dos funcionários que teriam praticado a irresponsabilidade político-financeiro do referido comunicado.

            Em tempos de eleições, é sempre bom botar as barbas de molho! Até mesmo quem não entende nada de economia, quem não consegue dirigir nem a própria “microeconomia” doméstica, é capaz de suspeitar que no período eleitoral vale tudo, tudo é possível, desde o pessimismo mal explicado dos analistas até a elevação deliberada dos preços (inflação fabricada), eventuais blackouts ou “corpo-mole” por parte de algum setor empresarial (“pibinho” forjado), e até mesmo a escassez de produtos nas prateleiras dos supermercados.

         Quem pratica algum tipo de terrorismo – seja econômico, político, financeiro ou eleitoral; quem ameaça a conjuntura e a estabilidade econômico-financeira de um país; quem dissemina o medo e a incerteza, atormentando uma população já suficientemente atormentada; quem apregoa a com a improvável “quebra” da nossa economia não pode posar de paladino da ordem e da paz – nem tampouco sair por aí reclamando do quebra-quebra dos black-blocs.

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