Padrão Brasil

             ATÉ às vésperas da Copa do Mundo de 2014 era muito comum ouvir-se a pergunta: vai ter Copa? A lamentável mídia brasileira disseminava diariamente a sensação de que essa Copa no Brasil seria um fracasso. Convenceram uma grande massa de brasileiros, até à última hora, de que não teríamos estádios prontos, não teríamos aeroportos adequados, haveria muitos protestos pelas ruas, os estoques dos bancos de sangue estariam deficitários, a criminalidade tenderia a aumentar durante a Copa e, pasmem!, poderíamos ter até uma “epidemia de dengue” em pleno inverno.

          Essa Copa do Mundo seria, portanto, o caos! No entanto, como num passe de mágica, da noite pro dia, como gostava de dizer o saudoso narrador esportivo Fiori Gigliotti, “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”. Surgiram então estádios modernos, os aeroportos funcionando a pleno vapor, sumiram os protestos, a criminalidade andou até em baixa, não houve epidemia de dengue, os bancos de sangue não “sangraram” como se esperava, e tudo resultou num dos maiores e mais bem organizados eventos da história do esporte mundial – elogiado pelo mundo afora.

                O Brasil e os brasileiros encantaram o mundo, e até mesmo a mídia “do contra” se rendeu a essa evidência. Alguns jornalistas chegaram a admitir expressamente que essa foi, de fato, a tal Copa das Copas. As poucas falhas verificadas no evento, sem exceção, foram falhas da FIFA. Isto é, a abertura sem graça, algumas filas nos estádios, a invasão do Maracanã pelos chilenos, as falhas de segurança, o esquema de venda ilegal de ingressos, tudo isso, deveu-se à incompetência da FIFA que, definitivamente, não esteve à altura do tal “padrão Brasil”.

            É certo que dentro de campo as coisas não andaram lá muito bem para o Brasil. Aliás, andaram muito mal. Os “entendidos” certamente saberão analisar e descobrir o porquê (ou os porquês) do vexame histórico vivido pela seleção brasileira. Todavia, fora das quatro linhas a vitória do Brasil foi indiscutível, reconhecida pelo mundo inteiro, com a logística da Copa aprovada por 83% dos turistas de 60 países que aqui estiveram (Datafolha). E nem poderia ser diferente. Alguém haveria de acreditar que o maior PIB da América Latina e a 7ª economia do mundo não seria capaz de realizar um campeonato mundial de futebol?

       Depois de construir mais de 400 mil metros quadrados de áreas internas nos aeroportos das capitais, depois de aumentar a capacidade desses aeroportos para mais de 70 milhões de passageiros, depois de acrescentar 30 bilhões de reais ao PIB nacional (Fipe), depois de construir inúmeras vias urbanas e linhas de metrô, e depois de expor positivamente a imagem do Brasil para o mundo todo, ampliando as possibilidades de negócios e investimentos estrangeiros, é possível que a nação brasileira tenha recuperado o orgulho, e espantado de vez aquele tal “complexo de vira-lata” de que falava o Nélson Rodrigues às vésperas da Copa de 58 – apesar do 7 a 1.

             O vexame dentro de campo deve ter muitas causas, deixo aos especialistas a tarefa de explicá-las, mas uma coisa parece certa. Como diz o Tunico Machado: Faltou time e torcida. O time não se encontrou dentro do gramado, e a torcida brasileira que lotou as arquibancadas nos jogos parecia mais uma comportadíssima plateia de tourada espanhola do que aqueles apaixonados torcedores do Brasil, que costumavam atuar como o 12º jogador do time e que empurravam a seleção canarinho sem parar.

             Por razões que muitos sabem, e a história talvez explique um dia, pode-se supor que nem todos os brasileiros torceram sinceramente, de corpo e alma, pelo Brasil e pela nossa seleção pentacampeã do mundo. Por uma lastimável confusão entre política e futebol, por um estúpido imblóglio ideológico, parece que uma parte dos brasileiros perdeu a garra, rachou a torcida, sufocou esqueceu nacional e “desafinou” (ou “afinou”) também fora de campo – lamentável!

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