Quem é o “pai” do Plano Real?

           TEM um monte de gente que reivindica a “paternidade” do festejadíssimo “Plano Real” – esse plano econômico que está completando vinte anos e que, além de eleger e reeleger presidente, teria estabilizado a economia brasileira de modo definitivo, de uma vez por todas, erradicando a hiperinflação e todos os males dela decorrentes. Segundo muitos especialistas, esse plano é realmente admirável, daí por que compensaria saber quem foi ou quem foram os brasileiros que o conceberam e o implantaram com tanto afinco, com tanto sucesso.

        Há quem diga que o “pai” do Plano Real foi o ex-presidente Itamar Franco, que encarregou seu então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, da hercúlea tarefa de acabar com a nossa persistente inflação e com as mazelas de uma economia estagnada, dependente do capital estrangeiro e incapaz de se desenvolver por suas próprias forças e méritos. Mas, há quem prefira atribuir a “paternidade” (e o sucesso) do Plano ao próprio Ministro de Itamar Franco – Fernando Henrique Cardoso, que então convocou uma renomada equipe de economistas para elaborar e implantar política monetária das mais austeras.

           Por isso mesmo, muita gente prefere atribuir a “paternidade” do Plano Real mais precisamente à equipe que assessorava o Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, e que depois viria a integrar o seu governo, os chamados “chigago boys”,dentre eles os economistas Pérsio Arida, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Edmar Bacha, Pedro Malan e Rúbens Ricúpero – para citar apenas os mais conhecidos e mais badalados pela mídia. E creio que ninguém pode tirar o mérito desses economistas que tanto fizeram para livrar o Brasil da inflação galopante que nos afligia até a década de 1990.

           Mas, creio também que ninguém pode ignorar que esses técnicos brilhantes, para erradicar a inflação no Brasil, nada mais fizeram do que, simplesmente, adotar o “receituário” e a ortodoxia do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro norte-americano, que então formavam aquilo que o professor inglês John Williamson chamou de “Consenso de Washington”. Isso mesmo, goste-se ou não, para o bem ou para o mal, a estabilização monetária no Brasil foi levada a efeito com a mais rigorosa obediência aos cânones do chamado neoliberalismo, para quem o único meio de conter processos inflacionários é a disciplina fiscal, a contenção de gastos públicos, a redução de salários, redução de impostos, o câmbio livre, os juros altos, a desregulamentação (desproteção) das economias emergentes, e as privatizações.

            Assim, cabe perguntar, quem é o verdadeiro “pai” do Plano Real: o ex-presidente Itamar Franco, seu ex-ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, os economistas que integravam a equipe desse ministro na época, ou o chamado “Consenso de Washington” que, sob as bênçãos do FMI, impôs ao Brasil sua cartilha genuinamente neoliberal, seguida à risca, com toda a ortodoxia, fidelidade e subserviência naqueles idos de 1994?

           E caberia perguntar ainda quanto é que custou ao país esse plano econômico que impôs a “venda” de empresas estatais lucrativas; que promoveu a mais radical abertura do nosso mercado às empresas estrangerias – essas que vêm fazer negócio aqui dentro e mandam lucros pra fora -, e que infligiu à classe trabalhadora enormes sacrifícios. É preciso “investigar”  e conhecer não só a “paternidade”, não só os bônus, mas também os ônus desse plano “milagroso”.

            Não foi o liberal Milton Friedman, provável guru dos “chacagos boys”, quem popularizou aquela frase “Não existe almoço grátis”? Tudo tem um custo. Assim, mais importante do que saber quem foram os iluminados “pais” do Plano Real, é saber o quanto um plano desses, que acabou com a inflação, mas acabou também com o Estado brasileiro, com suas empresas públicas, seu sistema bancário e sua capacidade de intervir no desenvolvimento econômico do país, terá custado aos brasileiros – das atuais e das futuras gerações.

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6 respostas para Quem é o “pai” do Plano Real?

  1. Márcio d'Ávila Ribeiro disse:

    Dr. Machado, o meu filho, Felipe, seu ex-aluno, me apresentou o seu blog. Impressionante a sintonia do que penso com o que o sr. escreve. Nesse texto sobre o “pai” do Plano Real, faltou mencionar o Rubens Ricúpero, ministro da Fazenda de Itamar à época do lançamento do Real. Muito se fala em estelionato nesse caso, ou apropriação indébita, não sei qualificar técnicamente.
    Parabéns pelo seu blog. Tomei a liberdade de repassar no facebook o seu último texto, sobre o terrorismo econômico.
    Obrigado.
    Márcio

    • dinart filho disse:

      O problema é que no receituário continha que pra moeda se manter estável, precisávamos de um lastro. Algo valioso no país que pudesse sustentar essa moeda então foi feita uma “adaptação” no plano, fazer o plano sem o lastro, manteve-se a moeda atrelada ao dólar e sem lastro o que causou uma onda inflacionária atrás da outra suprimidas com reservas cambiais e às custas de dobrar a nossa dívida externa.

      • Caro Dinart,

        Muito agradecido pela sua leitura e pelo comentário que esclarece tecnicamente um outro importante aspecto do Plano Real.

        Conto com mais colaborações desse porte.

        cordial abraço, Antônio Alberto machado

  2. Alexandre Sousa disse:

    Muito é culpa dos proprios empresario que usam da especulação para aumentar os preços e no brasil não tem leis que criminalizam esses atos. Ouvi falar sobre um brasileiro que se tornou empresario nos Estados unidos e foi processado por inflacionar o mercado americano por usar um vicio que adquiriu no brasil que é a especulação. Outro problema é a sonegação porque o empresario não quer pagar imposto, sendo que na realidade quem paga os imposto é o consumidor final ou seja nós, uma criança que pede um doce no armazem está pagando imposto e sonegar esse imposto devia ser considerado roubo e não é muito diferente de um assalto em que a vitima teve a sorte de só perder o dinheiro, mas não deixa de ser grave.

  3. Lorival disse:

    Nenhum destes citados foi pai do Plano Real. A ideia ORIGINAL, de uma moeda paralela URV aqui no Brasil e na Alemanha, em 1923 a URV se chamava Rentendmark, foi do economista e banqueiro alemão Hjalmar Schacht. A tese de doutorado do brasileiro Gustavo Franco, foi exatamente sobre como a Alemanha domou e praticamente eleminou em MENOS DE 6 MESES a hiperinflação de 1923, da casa de milhões % para menos de 15 % a.a. Hjalmar Schacht, este sim e o verdadeiro autor do plano original. Dai a Cesar o que é de Cessr…

    • Obrigado, Lourival, pela intervenção no blog.
      De fato, o Plano Real não tem muita novidade. A grande novidade é o preço que o país pagou por ele. O interessante, portanto, é saber de quem é a “paternidade” política desse plano aplicado ao Brasil que, diferentemente do ocorrido na Alemanha do começo do século 20, resultou no desmonte do Estado brasileiro.
      Espero novos comentários.
      Antônio Alberto Machado

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