Um legado das arquibancadas

     O PRIMEIRO legado relevante, proveniente das arquibancadas nesta Copa do Mundo de 2014, deu-se logo na abertura do torneio, já na estreia do Brasil, quando os torcedores brasileiros que lotavam o Estádio Itaquerão vaiaram estrondosamente a presidenta Dilma Rousseff e, não contentes, passaram a xingá-la de forma injuriosa, com palavrões realmente irrepetíveis.

     Não seria exagero dizer que o caso foi muito mais do que um simples protesto, foi uma espécie de injúria coletiva, praticada sem pudor, publicamente, diante dos olhos de 3,5 bilhões de telespectadores distribuídos por todo o globo terrestre, bem como na presença de Chefes de Estado, Chefes de Governos estrangeiros, Secretário Geral da ONU e até príncipes e princesas.

     Se for exagero dizer que esse episódio configurou um “crime coletivo de injúria”, talvez já não seja tão exagerado afirmar que o caso se constituiu, pelo menos, numa enorme grosseria e numa inominável falta de educação por parte da torcida brasileira na abertura do campeonato mundial de futebol no Brasil.

     Como os protagonistas desse lastimável episódio, na sua quase totalidade, eram pessoas das classes mais privilegiadas (dizem até que as vaias e os xingamentos começaram na “ala VIP” do estádio), e como essas classes têm (ou deveriam ter) um nível elevado de educação, pois estudam em escolas sofisticadas, já se pode extrair um primeiro “legado das arquibancadas da Copa” que é na verdade uma intrigante advertência: a educação no Brasil não anda bem nem mesmo nas escolas de alto nível, onde estuda a elite deste país, bem como a classe média que adora imitar a elite.

    Bem feitas as contas, esse primeiro “legado das arquibancadas”, nesta controvertida Copa do Mundo, acabou por revelar que a “ala VIP” da sociedade brasileira pode até ter boa “escolaridade”, mas isso não quer dizer que tenha boa “educação”; pode até ter acesso a bens e equipamentos culturais, mas isso não significa que seja realmente culta; pode até ter diplomas e títulos, mas tal não implica dizer que tenha realmente uma formação completa ou adequada.

    Todavia, se o caso dos xingamentos no estádio não foi simples falta de bons modos, mas um insulto criminoso; se a “ala VIP” da torcida brasileira embarcou momentaneamente numa histeria coletiva, injuriando a presidenta da República sem perceber que cometia um crime contra a honra de uma pessoa, então a coisa fica um pouco mais séria, pois, além da óbvia falta de educação, o comportamento da turba de cima naquele campo de futebol teria resvalado para o lastimável (e perigoso) campo da “falta de ética” e do ódio.

    Assim, o primeiro “legado das arquibancadas” no Mundial de 2014, além da advertência sobre a duvidosa qualidade pedagógica das escolas de “alto padrão” no Brasil, permite conjecturar: aqueles que não têm educação nem ética mereciam estar presentes numa solenidade, sob os olhos do mundo, onde se celebrava a maior paixão nacional e uma das mais autênticas manifestações da cultura popular brasileira?

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2 respostas para Um legado das arquibancadas

  1. anderson chicoria jardim disse:

    Professor,

    sugiro que crie uma pagina do bloq no FACEBOOK..todo mundo tem perfil nessa “praga”….rssss O potencial para compartilhar seus artigos se multiplicaria por 1000! Com milhares de ex alunos da Unesp e amigos podendo ter acesso mais fácil aos vossos textos!!

    Seria fantástico!

    Abração!!

    Anderson

  2. Fagner disse:

    Caro professor Antonio Alberto Machado, com todo respeito a sua opinião esquerdista que chama o povo na abertura da copa de vip, quero e devo discordar de parte do seu texto.
    Quando o povo desabafou( o senhor diz que é injuria coletiva) na abertura da copa foi contra o gasto de milhões para realização do mundial deixando muitos indignados!
    Sobre democracia que é semi direta quem acabou foi os politicos principalmente a esquerda que afundou no mundo de corrupção se igualando a direita !
    Portanto, não existe um só brasileiro que não esta revoltado com tanta corrupção, não é só os vip a classe media também! Abraço Fagner.

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