Pra não dizer que não falei do óbvio

     NESTE 1º de abril de 2014, o Brasil lembrou os cinquenta anos do golpe militar de 1964. Que pena, cinquenta anos de atraso político! E nada mais sugestivo que esse malfadado golpe tenha ocorrido exatamente no “dia da mentira”, pois é óbvio que o regime militar de 64 suprimiu a democracia, violou sistematicamente os direitos humanos e instalou a ditadura em nome de uma mentira cínica, em nome de um perigo que não existia.

     Era pura mentira que havia um “espectro comunista” rondando o Brasil e a América Latina naquela época. Isso era mais uma “cascata” do imperialismo ianque que financiou outras ditaduras sangrentas ao sul das Américas, e tudo por medo da revolução cubana. O presidente João Goulart era um fazendeiro, bem-nascido, bem-postado na vida, que nada tinha de comunista. O que o Jango queria, obviamente, era apenas “modernizar o Brasil”, superar o atraso e o parasitismo das oligarquias que sempre exploraram, venderam e por vezes até mesmo doaram as riquezas deste país aos seus aliados estrangeiros.

  De fato, o que o Jango queria era apenas tirar a massa de trabalhadores da informalidade, trabalhadores esses que hoje estão aí na economia formal, com carteira assinada; o que o Jango queria era ampliar alguns direitos trabalhistas que hoje estão assegurados em sua maioria, nas leis e na Constituição; o que o Jango queria era tão somente ampliar o acesso à educação que hoje é um direito fundamental reivindicado por todos; o que o Jango queria era apenas proteger a economia nacional contra as garras do imperialismo que sempre sangrou as “veias abertas” desta explorada América Latina; o que o Jango queria era apenas combater o latifúndio oligárquico que atualmente concentra 49% das terras agricultáveis nas mãos de apenas 1% de proprietários (e nem todos brasileiros) – o Jango não propunha nenhuma revolução comunista.

   Alguém minimamente lúcido ousaria identificar essas políticas do presidente deposto com as bandeiras do comunismo? Alguém minimamente instruído, e bem-intencionado, teria o direito de confundir comunismo com modernidade? Pois então, as nossas elites confundiram tudo isso e depuseram um presidente que queria fazer naquela época, há cinquenta anos atrás, exatamente o que estamos tentando fazer hoje, ou seja, simplesmente modernizar o Brasil – agora com cinquenta anos de atraso.

    E o pior é que, além do atraso, o Brasil e os brasileiros tiveram de suportar muita violência física, muita violência institucional, muito cinismo e impunidade daqueles que deram o golpe militar de 64 e dos que o apoiaram. É obvio que o regime militar suprimiu o direito e a liberdade, torturou, matou, cassou e “caçou”, fez e desfez impunemente. É óbvio que o regime de caserna no Brasil foi um pesadelo!

      Mas, é preciso destacar que o golpe militar no Brasil foi explicitamente apoiado e até financiado por empresas brasileiras e multinacionais, como foram os casos, por exemplo da Volkswagen e da General Motors. E teve também o apoio explícito Fiesp, tão explícito que há quem diga que os militares na verdade foram usados pela alta burguesia paulista para dar o golpe de 64.

    Muito se fala sobre as atrocidades óbvias praticadas pelo regime militar no Brasil, mas há também outras obviedades político-administrativas que nem sempre são ditas a respeito desse regime que não pode ser esquecido para não ser repetido jamais.

    Por exemplo, ninguém se lembra de falar que os militares tomaram o poder quando a economia brasileira crescia em níveis superiores a 7% ao ano; ninguém se lembra de dizer que, apesar desse potencial da nossa economia, os militares abriram o Brasil e suas terras à exploração do capital estrangeiro, que instalou aqui as suas indústrias para explorar a nossa matéria-prima, os nossos recursos naturais, a nossa mão de obra barata e o nosso imenso mercado interno consumidor.

    Ninguém se lembra de dizer que os militares promoveram o chamado “êxodo rural” que arrebentou com as nossas cidades. Com efeito, quando os militares assumiram tínhamos em torno de 70% da população vivendo e trabalhando no campo, quando eles saíram essa proporção já havia se invertido, pois 70% da população brasileira estavam agora nas cidades, o que desarticulou todas as políticas de serviços públicos essenciais como a saúde, a educação, a moradia, o transporte coletivo, o pleno emprego etc.

    O que ninguém lembra de dizer também é que o tráfico de drogas se instalou no Brasil exatamente durante o regime militar, isto é, sob as “barbas da repressão”, ou talvez até mesmo como um efeito dela. Está provado que o narcotráfico prolifera rapidamente com a repressão estatal, pois esta aumenta o preço da “mercadoria” e os lucros de traficantes. Em 1985, quando os militares deixaram o poder, o tráfico de entorpecentes já havia deitado suas raízes no território brasileiro e cresceu muito nos anos seguintes, fazendo explodir a criminalidade nos dias de hoje.

     Ninguém dá o devido destaque ao fato de que o chamado “milagre brasileiro” da época dos militares foi um desenvolvimento financiado pelo Estado, com dinheiro do povo, que arrumou a vida das empresas, fez o “bolo da economia” crescer rapidamente (como dizia o Delfim Neto), mas nunca repartiu esse “bolo” com ninguém. Por essa época do “milagre” e do tal “bolo da economia”, o Brasil chegou a atingir o 3º lugar entre os países que mais concentravam renda no mundo, portanto, além de não repartir o “bolo”, os militares na verdade deram um “bolo” na classe trabalhadora.

    Poucos se lembram de que o regime burocrático-militar, atendendo aos interesses da indústria automobilística estrangeira, abriu estradas no norte do Brasil a ferro e fogo, como, por exemplo, as rodovias Cuiabá-Santarém e a Transamazônica, expulsando e matando comunidades indígenas, às vezes tribos inteiras, que então “atrapalhavam” o progresso e o desenvolvimento nacional.

    Pouca gente costuma lembrar que os militares, a pretexto de defender o Brasil com a ideologia da Segurança Nacional, detonaram a nossa soberania. De fato, o golpe militar foi incentivado e financiado pelos Estados Unidos, e inteiramente monitorado pela CIA. Além disso, no período do regime militar, os Estados Unidos interferiam e monitoravam todo o sistema educacional brasileiro, do ensino fundamental ao ensino superior, através dos famosos acordos MEC-USAID, por meio dos quais até os livros didáticos, utilizados em sala de aula, precisavam passar antes pela aprovação dos norte-americanos.

    O regime militar foi um fracasso, foi um atraso, foi um pesadelo sob todos os aspectos. Fracassou na economia, na distribuição de renda, na qualidade dos serviços públicos, no desenvolvimento com independência, na defesa da soberania nacional, na modernização do Brasil, na segurança pública, na manutenção da “ordem e do progresso”… fracassou em tudo, e ainda estrangulou a democracia, a liberdade, a justiça social e os direitos humanos.

    Não bastassem todos esses fiascos, o pior é que a ditadura militar deixou ainda um legado fascista para a sociedade brasileira. O cotidiano do brasileiro está atravessado por uma mentalidade autoritária que frequentemente vem propor, por exemplo, o aumento da repressão estatal, o encarceramento em massa, as soluções policiais para os problemas sociais, a repressão aos movimentos populares, a desmoralização dos direitos humanos etc.

    Muitos ainda não se convenceram inteiramente de que o golpe de 64, e o subsequente regime militar, foram mesmo um desastre para o país. Ainda outro dia, para espanto de muitos, uma meia dúzia de “gatos pingados” tentou ressuscitar a estúpida “marcha da família com Deus pela liberdade” em São Paulo e saiu às ruas pedindo ordem, segurança, liberdade e, pasmem, a volta dos militares. Valha-me Deus! Como dizia a minha avó: “meu filho, tonto e pau torto não acabam nunca”.

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