Jornalismo irresponsável

          HÁ poucos dias, a mídia brasileira noticiou um fato inusitado que trouxe consigo traços evidentes da barbárie em que a sociedade brasileira pode estar se metendo sem se dar conta: justiceiros cariocas espancaram um negro menor de idade no bairro do Flamengo, cortaram-lhe um pedaço da orelha e o deixaram amarrado a um poste, nu e sangrando, exposto à execração pública – tudo como nos tempos trevosos da Idade Média e do Brasil colonial.

            Ao noticiar esse fato em rede nacional, uma jornalista de nome Rachel Sheherazade, depois de relatar objetivamente o fato jornalístico, resolveu emitir a sua “opinião pessoal”. Maldita hora! Pois não é que a moça inventou de referendar a ação dos “justiceiros”, afirmando que se tratava apenas de um ato de “legítima defesa” do grupo de milicianos. E para concluir seu desastrado “comentário pessoal”, a apresentadora ironizou o fato (e também seus telespectadores), dizendo que quem não concordasse com aquele “justiciamento” imposto ao menor deveria “adotar um marginal”.

            Não satisfeita com as besteiras desse lastimável “comentário pessoal”, aliás, desse “comentário criminoso” – pois fez uma clara apologia ao crime -, a tal jornalista utilizou o espaço público do jornal Folha de S. Paulo para disfarçar (ou justificar) a própria estupidez, tentando maquiar, por meio de um artigo, sua insustentável opinião. Mas, aí  a coisa acabou ficando pior.

           É que, nesse artigo recheado de senso comum, a moça voltou a destilar todo seu preconceito de classe, toda sua ignorância sobre o fenômeno da violência (uma visão “fascistoide” da realidade), e seu ódio escondido atrás de frases tais como “no Brasil às avessas, acredita-se que o bandido é sempre vítima da sociedade”, “o Estatuto da Criança e do Adolescente está a serviço do menor infrator”, esse menor “encontra guarida nas asas dos direitos humanos e suas legiões de ONGs piedosas”, os cidadãos estão “à mercê dos bandidos”, a lei é a “mãe permissiva dos criminosos” – por fim, acaba sugerindo até que a polícia não deveria responder pelas mortes praticadas em confronto com bandidos.

          Mas, há um outro fato que chama a atenção nesse artigo da tal da Sheherazade, publicado pela Folha de S. Paulo: a articulista começa dizendo, sem desconfiança nenhuma, que fez aqueles comentários sobre os justiceiros num espaço que era “seu”, um “espaço de opinião no jornal SBT Brasil”. Espaço de quem, cara pálida? O espaço das televisões é um espaço público, é uma concessão pública, e não pertence nem mesmo à rede de televisão, nem tampouco a jornalistas despreparados.

            Essa afirmação da apresentadora do SBT revela que a moça não sabe nem mesmo onde está, não sabe o que fala, e não sabe o faz. A única coisa que salva é sua “estampa” televisiva, porque o resto… É nisso que dá o oligopólio privado da comunicação social; é nisso que dá uma televisão recheada de “patricinhas”, “mauricinhos” e “dondocas” opinando sobre tudo: de receita de bolo, moda e vida das celebridades até política, sociologia, segurança pública e cidadania.

            Os jornalistas mais conscientes – e foram muitos -, condenaram as baboseiras ditas pela apresentadora do SBT e entraram a discutir o episódio sob a ótica da “liberdade de opinião”. Mas, seria importante que aproveitassem o momento, e esse caso emblemático, para discutir também a formação dos jornalistas no Brasil, o nível de seus conhecimentos gerais e humanísticos, bem como o grau de responsabilidade social e consciência crítica com que exercem a profissão.

            Isso talvez pudesse poupar um pouco mais a população brasileira da estupidez, da ignorância, do ódio e da superficialidade com que alguns pretensos jornalistas dizem fazer jornalismo por este Brasil afora. A opinião pública, que já não conta com uma mídia plural, não pode ficar à mercê de profissionais visivelmente despreparados, porque, se a opinião livre é um direito, o acesso à informação verdadeira, de qualidade e responsável também o é – e nesse item a grande mídia e boa parte dos jornalistas estão em débito com a sociedade brasileira:  provou-o, mais uma vez, a desastrada apresentadora do SBT.

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