Conselhos Universitários medievais?

        OS CONSELHOS Universitários são os órgãos máximos de gestão político-administrativa da universidade pública. Presididos pelos respectivos reitores, compõem-se de pró-reitores, diretores de campus e representantes eleitos pela comunidade acadêmica, isto é, representantes de docentes, alunos e funcionários técnico-administrativos. Órgãos coletivos e plurais que são, os Conselhos constituem (ou pelo menos deveriam constituir) a instância mais democrática da universidade

       A função dos conselhos em geral, todos sabem, é basicamente tornar as administrações mais participativas, evitando-se o autoritarismo das decisões monocráticas, tomadas e impostas por uma ou por poucas pessoas dentro das instituições, sejam elas públicas ou privadas. Na atualidade, os conselhos em geral são considerados um dos mais importantes instrumentos de ampliação da chamada “democracia participante”, ou “semidireta”, já que a democracia liberal meramente representativa se revelou um redondo fracasso em todos os campos, talvez até uma farsa – tanto do ponto de vista político quanto administrativo.

             Pretende-se que nas universidades, sobretudo nas públicas, que são (ou deveriam ser) o lugar da liberdade, da participação, da criatividade e, enfim, da utopia democrática, os Conselhos Universitários funcionassem, de fato, como exemplo de participação, transparência e democracia.

             Porém, na contramão disso tudo, pelo menos duas das universidades públicas do Estado de São Paulo, nomeadamente a USP e a UNESP, utilizam seus Conselhos de maneira autocrática, sem debate e sem a participação efetiva da comunidade, tomando decisões autoritárias, verticalizadas, de cima para baixo – muitas vezes por meio de manobras indesejáveis e antidemocráticas. Basta dizer, para resumir o assunto, que as reuniões desses Conselhos na USP e na UNESP são feitas a portas fechadas, como se fossem sigilosas, sem a participação de ninguém que não seja membro eleito do Conselho Universitário, isto é, realizadas secretamente, longe dos olhos da comunidade universitária e do público em geral – como nas sociedades cabalísticas.

           É curioso que até mesmo conselhos e instituições que integram o aparelho repressivo do Estado, como, por exemplo, os Conselhos Superiores do Ministério Público, o Conselho Nacional de Justiça, e até a Suprema Corte, realizam suas sessões a portas abertas, publicamente, com a presença dos interessados diretos e de qualquer pessoa do povo!

            As reuniões secretas, sigilosas e cercadas de mistérios calham bem às seitas, religiões e entidades antiquadas e cabalísticas como, por exemplo, os Conclaves, a Maçonaria ou a ordem medieval dos Cavaleiros Templários. É mesmo incompreensível que uma universidade pública, no alvorecer do século XXI, ainda se preste a fazer reuniões fechadas para tratar de assuntos políticos e administrativos, à revelia dos interessados, com a exclusão de quaisquer outros membros da comunidade universitária.

               Não por acaso, recentemente os alunos da USP enfiaram os pés na porta fechada do Conselho Universitário e ocuparam o local da Reitoria onde se realizava mais uma dessas reuniões secretas da Universidade, exigindo eleições diretas para reitor, voto paritário, participação nas decisões, e democracia real na universidade pública. Ao final da reunião, os gestores da Universidade de São Paulo, pressionados pelos alunos, prometeram mudanças na eleição do reitor, admitindo alguma participação direta (consulta) de toda a comunidade acadêmica.

           Falta agora os alunos da UNESP – e também seus professores e funcionários – exercitarem esse mesmo direito sagrado de resistência para abrir as portas do misterioso Conselho unespiano que ainda insiste em manter o estilo medieval: com reuniões secretas, sem transparência, a portas fechadas. É certo que a universidade, como instituição, nasceu mesmo na Idade Média; mas ela não precisa continuar politicamente medieval; a universidade precisa, isto sim, ingressar urgentemente na modernidade política.

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