Quem explica?

          APENAS nesta semana é que saiu a primeira condenação do chamado “mensalão tucano-mineiro”. Ou seja, um diretor do extinto Banco Rural foi condenado em primeira instância por uma juíza federal de Minas Gerais e vai recorrer em liberdade, podendo, assim, percorrer todas as instâncias judiciais até chegar, depois de muitos recursos, ao Supremo Tribunal Federal.

            Mas, quem explica por que os colegas desse diretor do Banco Rural, sem o tal foro privilegiado como ele, foram julgados e condenados diretamente pelo Supremo Tribunal Federal no caso do “mensalão do PT”, sem o direito de percorrerem, como cidadãos comuns, todas as instâncias do Poder Judiciário até chegar, em última instância, à Corte Suprema?

      Todos estão vendo que os réus do chamado “mensalão tucano-mineiro” são processados por diferentes varas das justiças federal e estadual; suas causas estão sendo apreciadas por muitos e diferentes juízes, passam por todas as instâncias recursais e, portanto, esses réus têm inúmeras chances de absolvição – e tudo isso sem alarde nenhum por parte da imprensa.

             Mas, quem explica por que o Ministério Público Federal e o próprio STF, no caso do chamado “mensalão do PT”, colocaram todos os réus num único processo, processaram todo mundo numa única ação – inclusive os acusados sem foro privilegiado -, aniquilando a oportunidade de apreciação da causa por parte de vários juízes, suprimindo as instâncias recursais, e tudo isso com um estrondoso alarde por parte da imprensa?

             O tal “mensalão tucano-mineiro” desviou três milhões e meio de recursos públicos para a malograda campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais em 1998, utilizou o mesmo Banco Rural para forjar empréstimos, conseguiu esses empréstimos por meio do mesmo empresário, o famosíssimo Marcos Valério, e se constituiu, segundo a juíza federal do caso, num esquema idêntico ao chamado “mensalão do PT”, cujo processo já está julgado em última instância.

            Mas, quem explica por que o processo penal de acusação contra o atual deputado federal Eduardo Azeredo do PSDB, e contra o atual senador Clésio Andrade do PMDB, ambos com foro privilegiado, ainda nem sequer entrou na pauta de julgamento do Supremo Tribunal Federal e corre até o risco de prescrição? Cadê o ministro Joaquim Barbosa, hoje presidente da Corte, que parecia tão bravo e que tinha tanta pressa em punir corruptos, mas que demora tanto pra pôr esse processo dos verdadeiros “pais do mensalão” em julgamento?

           E por falar no senador mineiro Clésio Andrade, é inevitável lembrar que ele foi o vice-governador do tucano Aécio Neves em 2003/2006 e, na ocasião da campanha ao governo de Minas Gerais, era sócio (isso mesmo: SÓCIO) do senhor Marcos Valério Fernandes de Souza, em várias empresas de publicidade, exatamente aquelas empresas que foram utilizadas para desviar dinheiro público no caso dos dois mensalões.

            Mas, quem explica por que na campanha do tucano Aécio Neves e Clésio Andrade ao governo mineiro, no ano de 2002, o empresário Marcos Valério, milagrosamente, comportou-se tão direitinho e não acionou esquema nenhum? Por que, nesse caso, não há sequer uma notícia de que Marcos Valério tenha desviado algum dinheiro para a campanha política de seu sócio, não há suspeita de que ele tenha lesado o erário público, e nem houve qualquer investigação nesse sentido?

         Quando ocorreu o julgamento do “mensalão do PT”, a grande imprensa ficou alvoroçada, encurralou o Supremo Tribunal Federal, noticiando sempre em primeira página cada passo da famosa Ação Penal 470, exigiu diariamente a condenação implacável de todos os réus, pediu cadeia exemplar pra todo mundo – sem piedade e sem nenhum direito a recurso, embargo, atenuante ou coisa que o valha.

            Mas, quem explica que agora, no caso do “mensalão tucano-mineiro”, a mesma imprensa, sem alvoroço nenhum, vem noticiar muito discretamente a condenação de um dos acusados, publicando essa notícia de forma quase invisível, em nota de roda-pé ou em matérias escondidas nas páginas internas dos grandes jornais e revistas, sem aquelas antigas manchetes indignadas com que, até agora há pouco, noticiavam o “mensalão do PT”?

             Durante o julgamento do “mensalão do PT”, a opinião pública (quer dizer: opinião publicada) também ficou excessivamente excitada, exigindo justiça a qualquer custo, punição severa e exemplar para os petistas corruptos, pedindo cadeia para esses ladrões do dinheiro público, enfim, pedindo a urgente “moralização da política e do país” encarcerando os políticos de esquerda.

            Mas, quem explica que agora, durante o moroso e discreto julgamento do “mensalão tucano”, ninguém está mais indignado, com o senso de justiça à flor da pele. Não se vê mais aquele furor moralizante, ninguém pede cadeia para os políticos da direita nem para os empresários que inventaram o jeito “mensaleiro” de corromper a democracia brasileira?

           Não se trata aqui, obviamente, de defender mensalões, mensaleiros, petistas ou quem quer que seja. Trata-se apenas de saber o porquê dos dois pesos e das duas medidas. Isto é, por que num caso os réus ligados a um mesmo partido de esquerda foram julgados num único processo, com ampla visibilidade e uma sórdida campanha pela condenação deles, e, no outro caso, de réus ligados a um partido de direita, as acusações foram diluídas por vários processos, por várias instâncias, com todas as possibilidades de recursos e embargos, e tudo isso de maneira bem velada, sem alarde nenhum por parte da mídia.

            É claro que ao colocar 40 réus, ligados a um determinado partido político num único processo criminal, com toda a mídia conservadora “emparedando” os ministros do Supremo Tribunal Federal, o resultado só poderia ser mesmo um julgamento político, ou pior, um julgamento político-partidário, com o inevitável sacrifício da racionalidade técnico- jurídica, do direito e da imparcialidade dos julgadores.

               Pois é, cadê aquela imprensa, aqueles jornalistas, cientistas, doutores e juristas que até há pouco tempo andavam tão indignados com a corrupção no país e, especialmente, com a corrupção no Partido dos Trabalhadores? Por que esses “especialistas” de plantão não se indignam agora, com a mesma veemência (ou hipocrisia?), frente ao  silêncio da mídia e à impunidade dos políticos e do partido que na verdade criaram o esquema de corrupção que eles (“especialistas”) tanto condenaram até ontem?

                Alguém explica?

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