Dez (óbvias) lições da rua

           OS PROTESTOS e reivindicações que chacoalharam o Brasil nas últimas semanas constituem, inegavelmente, uma extraordinária novidade na vida política e na cidadania brasileiras. Raramente o nosso povo vai às ruas para protestar. Ninguém está entendendo ao certo esses acontecimentos, nem o que acontecerá daqui para a frente. Algumas primeiras lições, porém, talvez seja possível tirar (ou ouvir) disso tudo que os políticos e os “entendidos” andam agora chamando de “as vozes da rua”.

         A primeira lição, mais do que óbvia, é que há muita gente insatisfeita neste país; muita gente indignada com a política, com os políticos, com o nosso modelo produtivo, com a incompetência dos nossos dirigentes, com as mazelas sociais e, enfim, com a situação caótica a que chegaram as nossas grandes cidades onde a qualidade de vida vai descendo ao rés do chão.

          A segunda lição é que, ao contrário do que sempre se imaginou, não é apenas o futebol e o carnaval que conseguem levar grandes multidões às ruas deste imenso Brasil. Alguns movimentos sociais, agora auxiliados por diabólicas ferramentas da internet, demonstraram que também têm grande capacidade de mobilização, e até uma razoável capacidade organizacional.

             A terceira lição é que entre esses insatisfeitos e indignados, que foram protestar nas ruas, há muita gente disposta a tudo. O brasileiro não é tão pacato e politicamente acomodado, pois há quem esteja disposto a partir pra violência, pronto pra matar ou morrer, quebrar o que vier pela frente, e botar tudo abaixo – inclusive o poder da polícia e a prepotência de algumas autoridades que ainda não haviam experimentado a fúria do povo.

          A quarta lição é que, neste momento, os partidos políticos não têm nenhuma condição de realizar a mediação entre a sociedade civil e o Estado: seja porque estão desacreditados em razão de um sistema político corrompido, seja porque não têm nenhum modelo alternativo (nem mesmo os partidos de esquerda) para canalizar a energia e as reivindicações populares no rumo das mudanças realmente estruturais e definitivas.

              A quinta lição – que na verdade decorre da quarta – é que a democracia liberal burguesa, com suas distorções representativas, com sua promiscuidade partidária, com seu financiamento privado de campanhas, está completamente falida, é um arremedo de democracia que precisa ser superado, talvez pela adoção dos mecanismos de participação popular direta.

           A sexta lição é que há vários tipos de indignados nas ruas. Há, por exemplo, os “conscientes” que percebem, de fato, as causas e os problemas estruturais que fizeram deste país um país injusto e violento; há os “empolgados” que se deixam levar pela empolgação de momento e protestam contra tudo, sem saber exatamente o porquê; e há os “moralistas” que dirigem seus protestos tão somente contra a corrupção, mas o fazem de maneira seletiva, condenando apenas os agentes corruptos do setor público sem sequer suspeitar que os corruptores estão bem escondidinhos no setor privado.

           A sétima lição é que a vagueza, as contradições e ambiguidades dos manifestos populares não conseguem apontar nem os problemas nem os inimigos reais do povo. Prova disso é que prefeitos e governadores baixaram as tarifas do transporte público, mas o fizeram renunciando a alguns impostos e contribuições, tudo pra não mexer no lucro dos empresários. Quer dizer, o povo baixou a tarifa dos ônibus mas nem percebeu que continuou pagando o pato através dos impostos!

              A oitava lição – decorrente da sétima – é que o Movimento Passe Livre desencadeou as manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público, venceu a batalha, mas não levou – exatamente como na famosa “vitória de Pirro”, pois o prejuízo continuou no bolso de todos nós, poupando escandalosamente a “máfia do transporte”. Por isso, se ainda estivesse por aqui, com sua ironia habitual, Machado de Assis certamente diria: “Aos vencedores, o Largo da Batata!”

           A nona lição é que mobilizações populares sem um razoável nível de organização, apesar das boas intenções dos mobilizados, sempre correm o risco de ser cooptadas e absorvidas pela mídia brasileira corporativa e conservadora, cuja estratégia é apoiar as reivindicações moralistas, defender a ordem estrutural vigente, e ocultar a apropriação privada da coisa pública.

            A décima e última lição é que esses protestos demasiadamente ecléticos têm tudo pra acabar como acabaram o “Occupy Wall Street” em Nova York, os “Indignados da Plaza del Sol” em Madri  e os “banlieus” da periferia de Paris em 2005, ou seja, são protestos que deixam um rastro de indignação e esperança, mas quase sempre acabam dando em nada, pois, brasileiros, americanos, espanhóis, franceses e outros povos que também se rebelaram ainda não perceberam que o problema não é o Estado nem a política, mas o mercado, os mercadores, e a lex mercatória que transformaram tudo num grande negócio.

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