Por causa de vinte centavos?

             ESTA semana, o Movimento Passe Livre (MPL) vem organizando manifestações e protestos na capital paulista. Quase paralisou São Paulo e provocou uma violentíssima reação da Polícia Militar, tudo por causa de um aumento na tarifa de ônibus de R$ 3,00 para R$ 3,20, portanto, por causa de míseros vinte centavos. É claro que esse protesto gerou também os contraprotestos – como sempre. Ouvi dizerem que o movimento era uma ação de baderneiros, que ele estava mais para vandalismo do que para ação reivindicatória, que havia manipulação política por trás das manifestações de rua, que nenhum protesto pode acarretar prejuízo pra ninguém, nem muito menos para a propriedade pública ou privada.

             Enfim, houve todo tipo de reação aos protestos do MPL e outros movimentos. Houve até quem pedisse que os manifestantes fossem sumariamente fuzilados pela Tropa de Choque da Polícia Militar, para que deixassem de atrapalhar o trânsito, para que não atrapalhassem a vida da maior cidade do país que, como todos sabemos, é uma cidade tão dinâmica que não pode parar, não pode pensar, não pode reivindicar, não pode lutar, não pode mudar…

       Houve até os contraprotestos enrustidos e mal disfarçados, cínicos talvez, daqueles que se dizem a favor dos protestos, mas, sem baderna, sem transtorno pra ninguém, sem prejuízo para os cidadãos, nem qualquer espécie de lesão ou ameaça de lesão à propriedade alheia. Quer dizer, os protestos têm de ser ordeiros e monásticos, como aqueles que só ocorrem nos monastérios e conventos: em paz, sem ação, sem barulho, sem blasfêmia… enfim, sem protesto.

             Depois que o pau quebrou, depois que a Polícia Militar reagiu violentamente com cassetetes e balas de borracha pra todo mundo (manifestantes e jornalistas), depois da reação desproporcional e descontrolada da polícia, enfim, depois da burrice policial, vejo agora nas folhas que um suposto “serviço de inteligência” dessa mesma polícia teria descoberto que há um partido de esquerda insuflando a violência, arregimentando punks e anarquistas – só pra desmoralizar as administrações do prefeito da Capital e do governador do Estado.

         Antes dessas análises e apoios ingênuos dos que reconhecem a legitimidade do protesto, mas não querem tumulto; à parte o fascismo dos que querem exterminar os manifestantes; à parte essa paranoia ou justificativa da polícia de que há um pequeno partido de esquerda com uma assombrosa capacidade de mobilização e convencimento agitando o Movimento Passe Livre, o melhor seria colocar a seguinte pergunta: por que tanto tumulto e tanto barulho em torno de míseros vinte centavos de aumento nas tarifas dos ônibus?

             Esses fenômenos de massa são complexos, portanto, nunca comportam explicações únicas nem simplistas. Mas, uma coisa devemos considerar: os vinte centavos podem ter sido apenas a gota d’água que entornou o caldo da paciência do trabalhador, espremido pelo crescente arrocho salarial, pela precarização dos direitos trabalhistas, pela instabilidade no trabalho, pela ameaça constante do desemprego, pela falta de oportunidade, pelos privilégios de poucos, pela corrupção, pela precariedade do transporte público coletivo, pela ineficiência dos serviços de saúde e de assistência social etc.

            É isso mesmo, ninguém aguenta eternamente tanta opressão, tanta injustiça, tanta desigualdade e vida dura. Um dia o caldo entorna. A eventual melhoria nas condições de vida dos trabalhadores (como transporte urbano acessível e de qualidade, por exemplo), é muito lenta, muito modesta. O problema é que os mais apressados, distraídos, inatingíveis, e até as autoridades, ainda são capazes de achar que o caldo entornou na capital paulista só por causa de míseros vinte centavos!

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