A última mensagem do general

               POR MAIS que a morte possa ser considerada um fato natural, cotidiano e talvez até mesmo corriqueiro, a verdade é que “a morte de alguém” sempre tem algo de inquietante, algo que suscita uma certa atmosfera de respeito e até mistério. O filósofo francês Jacques Derrida dizia que tudo isso (inquietação, respeito, mistério…) se deve ao fato de que o desaparecimento de uma vida humana é sempre o “desaparecimento de um universo único, irrepetível”.

              Por razões como essa, mas, sobretudo por uma questão de princípio, acredito que a morte de alguém, seja lá quem for o “de-cujus”, nunca poderá ser motivo de comemoração. Por mais que o morto tenha sido um “universo lamentável”, por mais perverso que tenha sido o conjunto de suas ações em vida, por maiores que tenham sido os seus crimes, mesmo assim, não há nada a comemorar na morte de uma pessoa dessas. Creio que se não houver motivo para lamento e tristeza, também não haverá razão para festa e alegria!

             Nem a morte de um Adolf Hitler, um Joseph Stálin, de Francisco Franco, de Benito Mussolini, um Augusto Pinochet, enfim, um desses ditadores sanguinários, declarados pela História como inimigos da humanidade, nem a morte desses, deve ser motivo bastante para o riso, para o escárnio ou para qualquer tipo de comemoração – a morte, que é a antítese da vida, é sempre um fato soturno, portanto, a antítese também da festa e da alegria.

           Dessa forma, não havia por que comemorar (como se comemorou) a morte do ditador argentino Jorge Rafael Videla, ocorrida ontem na cadeia de Marcos Paz, onde ele cumpria pena de prisão perpétua pela prática de crimes contra a humanidade, cometidos quando comandou a mais sanguinária ditadura da América Latina dos anos 70/80, isto é, a ditadura Argentina, que se instalou em 1976. O ditador morto liderou um golpe militar contra o governo constitucional de Isabelita Perón, presidiu de fato a Argentina de 1976 a 1981 no período mais sangrento da ditadura, e depois, até 1983, foi sucedido pelos também ditadores Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone, quando então aquele país platino voltou à normalidade constitucional.

           O líder golpista Jorge Rafael Videla acabou condenado criminalmente pela justiça argentina em 2010 por crimes de lesa-humanidade, considerado responsável direto pela morte e pelo desaparecimento de aproximadamente 10 mil pessoas, responsabilizado também pela prática de torturas crudelíssimas contra presos políticos, pelo sequestro de mais de 500 bebês recém-nascidos nas prisões políticas, e pelos chamados “voos da morte”, por meio dos quais os militares atiravam os adversários do regime, todos com vida, em alto mar ou no Rio da Prata.

         Mesmo depois de condenado pela justiça, depois de devidamente recolhido ao cárcere e depois de execrado pelo povo argentino, esse ditador incorrigível continuou sustentando – segundo seus biógrafos – que toda aquela violência era de fato necessária naquele momento – e que faria tudo de novo, sem culpa nem arrependimento. Todavia, em meio a essas diatribes, o general deixou uma mensagem inquietante, sobre a qual valeria a pena refletirmos, sobretudo nós que estamos aqui nesta parte de baixo do globo onde se sucederam várias ditaduras como a da Argentina.

            Apesar da lamentável existência desse “universo único” – e queira Deus, irrepetível! – que foi a vida de Jorge Rafael Videla, uma mensagem intrigante ele deixou ao final de seus dias. O ditador, mesmo sendo réu-confesso, considerava-se um verdadeiro “bode-expiatório”, pois a sociedade argentina, segundo ele, teria sido “cúmplice da ditadura”, já que não havia vozes contrárias ao regime militar; regime que ele comandou com mão de ferro e com injustificável crueldade.

          A mensagem do ditador portenho é muito clara, ou seja, a tolerância e o simples silêncio dos indiferentes, a falta de resistência ou de protesto, podem ser entendidos pelos tiranos como uma espécie de aprovação tácita, e de conivência, para com suas práticas ditatoriais; ou, nas próprias palavras do déspota argentino, uma espécie de cumplicidade criminosa com as ditaduras. Talvez o general, na sua tosca justificativa, estivesse a dizer que a indiferença e a ignorância política são tão desastrosas que podem ser até o “fermento” das tiranias.

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