Mais uma do “mensalão”

          ALGUNS, mais entusiasmados, consideraram que o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal – a ação penal 470 – foi um julgamento histórico, que doravante permitirá “passar o Brasil a limpo”, mandando para a cadeia os políticos corruptos e seus asseclas, especialmente os dirigentes do  Partido dos Trabalhadores, que hoje está no governo. Outros, ao contrário, entenderam que o caso do mensalão foi um julgamento político, que condenou réus sem provas suficientes, sem o devido processo legal, com a finalidade última de atingir o governo do PT e a esquerda brasileira.

            Mas o que ninguém duvida é que o mensalão julgado pelo STF foi o mais midiático processo de que se tem notícia na história da justiça brasileira. Desde que a ação penal 470 foi colocada em pauta, a mídia enfiou o mensalão na cabeça, nas conversas, nas discussões, na mesa, nos bares e nos lares dos brasileiros. Aliás, eram poucos aqueles que admitiam a absolvição de algum réu. Tratou-se, não se pode negar os fatos, de julgamento de um resultado só: CONDENAÇÃO IMPLACÁVEL DOS ACUSADOS.

          E não há dúvida, portanto, que o sistema de mídia (os jornalões, os revistões, os blogões, os tevelões etc.) teve um papel muito estranho (e talvez decisivo) nessa história toda. O insuspeito jornalista Jânio de Freitas da Folha de S. Paulo, ao prefaciar o livro “A outra história do mensalão: as contradições de um julgamento político”, de Paulo Moreira Leite, afirmou que, mesmo antes de a ação penal 470 entrar em julgamento pelo STF, “o mensalão já estava sob uma ação penal executada pela imprensa, pela TV, pelas revistas e pelo rádio”. E diz mais esse renomado jornalista: O mensalão foi “uma ação que mal começara e já chegava à condenação de determinados réus”.

        Assim, há uma grande evidência de que a mídia conservadora e corporativa influenciou fortemente não apenas a opinião pública, ou melhor, a “opinião publicada”, como também terá influenciado o posicionamento de muitos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, visivelmente constrangidos diante do consenso geral de que os réus do mensalão deveriam ser condenados a qualquer custo, de modo implacável e exemplar. Ai do ministro que absolvesse algum dos acusados!

            Pois bem, não bastassem todas essas suspeitas ou evidências de envolvimento e pressão por parte da mídia conservadora de direita sobre o julgamento do mensalão, vem agora o Sr. Merval Pereira, comentarista da Globo News e colunista do jornal O Globo – e que até já foi diretor de jornalismo das Organizações Globo – e publica um livro intitulado “Mensalão: o dia a dia do mais importante julgamento da história política do Brasil”, sustentando, evidentemente, o acerto das condenações e a grandiosidade histórica do julgamento que, segundo ele, poderia significar “o começo do fim de uma política partidária corrompida há muitos anos”.

             Mas, o que chama a atenção nesse livro não é o posicionamento do autor – que era inteiramente previsível. O que causa estranheza é que o livro está prefaciado por nada mais, nada menos, do que o senhor Carlos Ayres Britto, justamente o ministro que presidiu o julgamento e que colocou a ação penal 470 em pauta às vésperas das eleições, depois de uma espera de sete anos, exatamente como queriam os partidos de direita e a mídia conservadora – inclusive e sobretudo os patrões globais do Sr. Merval Pereira.

         Cá pra nós: bem que esse ministro (hoje aposentado), Doutor Carlos Ayres Britto, poderia ser um pouco mais prudente e ter evitado prefaciar o livro de um funcionário das Organizações Globo: justamente o veículo de comunicação social mais poderoso do país e que tanto queria condenar os réus do mensalão, atingir o Partido dos Trabalhadores, desmoralizar a esquerda e desestabilizar o governo atual. Um pouco de desconfiômetro não faria nada mal a esse ex-ministro!

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