Ventos esquisitos na América Latina

             É MUITO estranho, e não pode ser mera coincidência, que nas últimas décadas o povo da América Latina tenha elegido tantos governantes de esquerda, socialistas e comunistas, elegendo até alguns guerrilheiros que, no passado, andaram pegando em armas para combater as ditaduras de direita no subcontinente! E elegendo-os para os cargos máximos do subcontinente: presidentes da república.

               Quer ver se não é verdade?

          O povo brasileiro elegeu duas vezes o sindicalista de esquerda Lula da Silva e em seguida a presidenta Dilma, que além de comunista até já foi guerrilheira; o povo equatoriano elegeu o esquerdista Rafael Correa; o povo boliviano elegeu o socialista Evo Morales; o povo venezuelano elegeu três vezes o socialista bolivariano Hugo Chávez; o povo chileno elegeu a esquerdista Michelle Bachelet; o povo paraguaio elegeu o comunista Fernando Lugo; o povo nicaraguense voltou a eleger o ex-guerrilheiro de esquerda Daniel Ortega; os argentinos elegeram sucessivamente os justicialistas Néstor e Cristina Kirchner; o povo hondurenho elegeu Manuel Zelaya que tinha propostas de esquerda; o povo peruano acabou de eleger Ollanta Humala, e o povo uruguaio, depois de eleger o socialista Tabaré Vásquez, acabou elegendo o comunista e ex-guerrilheiro José “Pepe” Mujica, para a presidência da república.

           Todos esses presidentes latino-americanos foram eleitos com base em programas que propunham profundas reformas sociais e econômicas, com propostas de oposição ao neoliberalismo, de distribuição de renda, de participação política, de resgate dos direitos dos trabalhadores, de defesa dos direitos humanos fundamentais e de confronto com os famosos “programas de ajustes fiscais” impostos pelo chamado “consenso de Washington”, que tanto penalizaram os pobres na periferia do mundo capitalista; enfim, foram eleitos com discursos nitidamente de esquerda.

            Não seria exagero, portanto, concluir que o povo latino-americano quer mudanças, e já. Há muitos anos e muitas eleições vem elegendo, um atrás do outro, governantes que apoiam antigas reivindicações do trabalhismo e do socialismo, isto é, escolhendo nas urnas os candidatos que empunham bandeiras típicas da esquerda, de defesa dos pobres e da classe trabalhadora, exatamente aquelas bandeiras que implicam reformas socioeconômicas em prol das classes populares e que a direita insiste em chamar de populismo ou demagogia eleitoreira.

         Os resultados dessas eleições revelam, sem sombra de dúvidas, que os “ventos esquerdizantes” têm soprado fortemente na América Latina, tentando empurrar para longe as baboseiras, as mentiras e as mazelas do chamado neoliberalismo, do mercado livre, da livre concorrência etc. Enfim, são os ventos não neoliberais que têm embalado o eleitorado latino-americano (e não é de hoje!), sinalizando claramente que as mudanças (sociais, políticas e econômicas) precisam acontecer entre nós, ou melhor, já deveriam ter acontecido aqui nesta região do planeta tão duramente castigada e explorada pelo imperialismo do norte, pela ganância das elites nativas e pelos aventureiros de sempre.

         Mas, se o povo latino-americano vem colocando no comando de seus respectivos países presidentes e presidentas de esquerda, cabe perguntar: por que é que as mudanças sociais, políticas e econômicas, que atendem genuinamente aos interesses populares, não acontecem na estrutura da sociedade nem na medida desejada pelo povo?

             Isso só pode ser por três motivos: (1) primeiro, porque esses dirigentes de esquerda latino-americanos têm de governar Estados, sociedades e economias capitalistas, logo não lhes é fácil implementar medidas sociais e econômicas, tipicamente de esquerda, que contrariem o interesse do capital, em benefício da maioria do povo que os elegeu; (2) segundo, porque esses dirigentes, depois de eleitos, ficam sozinhos, sem o apoio popular daqueles que os colocaram no governo, pois nas democracias liberais burguesas, ou representativas, a participação popular começa e se esgota no dia da eleição, num claro sinal de que a urna não é uma “porta de entrada” para a cidadania, mas o seu limite intransponível; (3) terceiro, porque os presidentes de esquerda não conseguem maiorias nos Congressos.

             É por essas e outras que a máscara da democracia representativa burguesa vem caindo dia a dia, revelando que ela é mesmo uma farsa, um engodo bem-bolado, pois o povo pode até mudar o governante, pode até pôr no governo dirigentes de esquerda com seus programas e propostas de reformas sociais, mas não consegue mudar o sistema socioeconômico que o oprime e que está por trás da “fachada” enganadora da democracia liberal burguesa.

            Seja como for, tomara que esses “ventos de esquerda” que vêm soprando na América Latina tenham servido, ao menos, para diminuir ou retardar os impactos da ofensiva neoliberal que nos atingiu duramente a partir dos anos 90. Olha que um dia esse povo latino-americano ainda descobre a falácia da democracia representativa e resolve usar a força que tem não apenas nas urnas, mas também na rua, nas fábricas, nos campos!  Bem que esses “ventos esquisitos” que andam bafejando a América aqui embaixo poderiam extrapolar os limites tacanhos das urnas eleitorais e varrer definitivamente o lixo neoliberal, a ganância do imperialismo, a arrogância dos exploradores e a imponência supostamente científica dos seus ideólogos.

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