Os pecados de Hugo Chávez

          AGORA que o presidente da Venezuela está morto e já não ameaça mais os interesses políticos e econômicos de seus adversários, a mídia conservadora e reacionária do mundo todo – inclusive a brasileira -, deverá baixar o tom de suas críticas até então dirigidas ao líder venezuelano – que já foi chamado pelos propagandistas do capitalismo de “desequilibrado”, “histriônico”, “falastrão”, “ridículo” etc. Por força do respeito (ou medo) transcendental que se devota aos mortos, doravante essa mídia deverá referir-se ao Hugo Chávez de maneira mais branda, com adjetivos menos grosseiros, qualificando-o, por exemplo, apenas como um “caudilho”, “populista”, “político controvertido”, ou “líder polêmico”.

            É assim mesmo, depois da morte todo mundo (até Hugo Chávez) sempre passa a merecer um pouco mais de respeito – ganha uma certa respeitabilidade transcendente! Mas em vida, o sistema de mídia interno e internacional, e com ela, portanto, a mídia brasileira, só fez demonizar o líder venezuelano. E o fez com tanta competência que sempre foi muito difícil encontrar alguém que tivesse simpatia ou respeito pelo presidente da Venezuela. O mais comum é encontrar gente que não gosta do Hugo Chávez, que lhe tem uma antipatia difusa, sem nem mesmo saber ao certo por quê. Não gosta e pronto!

          Certamente que o governante venezuelano tinha lá seus defeitos e equívocos! Posso até imaginar que eles não eram poucos, sobretudo quando se tem a árdua tarefa de dirigir um país pobre, subdesenvolvido, na periferia do capitalismo e historicamente explorado pelas grandes potências. Mas, os apregoados “erros” e “pecados” do líder latino-americano, que seriam responsáveis pela sua, digamos, demonização/desmoralização perante a opinião pública (ou “opinião publicada”) fora da Venezuela, são bem peculiares – quase me parecem ‘virtudes”.

          Na minha modesta opinião, foram cinco os “pecados capitais” de Hugo Chávez, cometidos contra a “lógica do capital” – assim mesmo, com trocadilho e tudo -, que é a lógica do mundo.

            O primeiro “pecado” foi ter derrotado vexaminosamente a direita venezuelana nas urnas por seis vezes consecutivas. Venceu três eleições diretas para presidente da república, dois referendos e um plebiscito, sempre pelo voto direto da população. Há alguma dúvida sobre a vontade soberana do povo venezuelano e sobre a legitimidade dos poderes conferidos por aquele povo ao presidente Hugo Chávez? Pois mesmo assim a direita (dentro e fora da Venezuela) continua chamando o líder bolivariano de DITADOR, e até tentou um golpe em 2002, retirando-o da presidência à força.

           Porém, dois dias depois ele recuperou seu legítimo posto de presidente da república nos braços do povo, e ainda por cima enfiou goela abaixo de seus adversários um referendo popular que o confirmou no cargo de presidente da Venezuela. Esse “pecado” de humilhar a direita nas urnas jamais será perdoado, a direita não engole isso, nem as elites venezuelanas e os megainvestidores internacionais que vivem de olho no petróleo da Venezuela. Hugo Chávez governou por quatorze anos e ganhou quinze eleições diretas – todas elas fiscalizadas externamente por organismos internacionais. Dá pra considerá-lo um “ditador” como querem a direita e seus propagandistas?

           O segundo pecado de Hugo Chávez foi nacionalizar os hidrocarbonetos, colocando o petróleo da Venezuela nas mãos de seu legítimo dono: o povo venezuelano. Há uma decisão mais legítima do que utilizar os recursos naturais de um país em benefício de seu próprio povo? Pois também esse pecado a cantilena privatista neoliberal, a indústria petroleira norte-americana e as multinacionais que sempre sangraram as “veias abertas da América Latina” (como dizia Eduardo Galeano) jamais perdoaram.

        Nacionalizados os hidrocarbonetos, o líder bolivariano criou a estatal petrolífera PDVSA e destinou o dinheiro do petróleo (mais de 120 bilhões de dólares) para os programas sociais que reduziram a pobreza extrema do país de 20 para 7%, que acabaram com o analfabetismo (tal como reconhecido expressamente pela Unesco), e reduziram a mortalidade infantil pela metade. Pode haver uma destinação mais legítima para os recursos naturais de um país, ainda mais um país pobre? Pois a direita venezuelana e internacional também não perdoa esse pecado de Chávez, porque essa opção nacionalista pelos pobres seria mero populismo que ameaça a lógica neoliberal das privatizações, do mercado livre, da livre concorrência e outras baboseiras que tais.

         O quarto “pecado capital” do líder latino-americano foi sonhar com uma América Latina independente e autônoma, com a criação da Alba, o fortalecimento do Mercosul, os investimentos na produção, o fortalecimento do mercado interno latino-americano – o maior mercado do mundo. Por isso, enfrentou abertamente o imperialismo estadunidense, chegando a desafiar pessoalmente o então Presidente George Bush, chamando-o de “Satanás”, por ter matado tanta gente inocente no Iraque em busca de petróleo. O sonho de uma América Latina livre e independente, dona de seus recursos naturais (petróleo, água, minérios, biodiversidade amazônica etc.), é também um pecado que o imperialismo do Norte, interessado na dependência dos países pobres, não perdoará nunca.

          Por último, Hugo Chávez cometeu o “pecado capital” de quebrar o monopólio da informação social até então desfrutado apenas pela Rádio Caracas Televisión (RCTV) e pela Globovisión. Chávez cancelou a concessão pública da primeira e impôs pesadas multas à segunda por terem feito campanhas difamatórias contra o Governo e por apoiarem o golpe de 2002 que o levou à prisão por dois dias. Mas, o “ditador” teve o cuidado de confirmar suas medidas contra a mídia burguesa por meio de um referendo popular, portanto, democraticamente. Além disso, criou 6 canais de TV, 1 jornal de circulação nacional, 4 redes de rádio, 2 sites, uma revista e uma agência de notícias públicos, com a evidente finalidade de democratizar a informação, que era monopolizada (e manipulada)  por uma única rede de rádio e televisão, particular.

           Está aí talvez o maior “pecado” de Hugo Chávez: enfrentar o monopólio da imprensa venezuelana. Tarefa que a Argentina está tentando fazer a duras penas e da qual o Brasil acabou de desistir, arquivando o projeto de lei que estabelecia não apenas o tal “marco regulatório” da comunicação social de massa, e, sobretudo, sua democratização, pois enquanto o oligopólio da imprensa permanecer nas mãos de cinco ou seis proprietários privados, jamais teremos uma democracia autêntica neste país continental.

           Pois bem, voltemos ao Chávez. Falávamos dos cinco grandes pecados que fizeram dele o “demônio” que o mundo e o Brasil tanto excomungaram sem conhecê-lo direito. Esses “pecados” são as verdadeiras razões pelas quais o sistema de mídia internacional – incluída a mídia brasileira -, corporativa e comprometida com interesses imperialistas das nações e empresas multinacionais, que financiam os grandes jornais, rádios, revistas, televisões e internet, tanto se empenharam na destruição da imagem do líder e dirigente Hugo Chávez.

       Esses são os verdadeiros “pecados capitais” de líder recém-morto. Mas, é justamente por causa desses “pecados” que o povo venezuelano continua cantando “AH, AH, AH, CHÁVEZ NO SE VÁ”. E é por causa da manipulação e escamoteamento dessas verdades, realizados cotidianamente pela mídia do capital, que muitos de nós, latino-americanos e vizinhos de parede-meia da Venezuela, ainda continuamos desconhecendo o verdadeiro Hugo Chávez, e demonizando o “dirigente maluco” que a mídia corporativa nos desenhou, pintando-o com as cores tenebrosas do preconceito.

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