O ministro e o mesário

           QUANDO o relator do processo do “mensalão”, ministro Joaquim Barbosa, dirigiu-se a sua secção eleitoral para votar no primeiro turno das eleições no Rio de Janeiro em outubro de 2012, foi recebido pelo público e pela imprensa como uma celebridade, um ministro pop star. Tirou fotografias com as pessoas que encontrou pelo caminho, distribuiu sorrisos e autógrafos, recebeu elogios e aplausos, enfim, protagonizou cenas de tietagem explícita.

           Mas, quando o revisor do processo, ministro Ricardo Lewandowsky, chegou no seu posto de votação em São Paulo a recepção foi completamente diferente. Entrou muito discreto por uma porta lateral, recebeu críticas de alguns circunstantes, não foi aplaudido nem distribuiu autógrafos – e uma eleitora mais exasperada chegou até a dirigir-lhe certa expressão de nojo.

          Notem como num caso e noutro a reação do público foi diametralmente oposta: enquanto o ministro relator, que condenou os réus do “mensalão petista” com notável dureza, era recebido como herói; o ministro revisor, que absolveu alguns desses réus, foi encarado quase como vilão. Sinal de que a opinião pública nacional, mesmo sem conhecer as provas do processo, já tinha seu veredicto previamente definido: CULPADOS.

          Onde a opinião pública encontrou tanta certeza sobre a culpa de todos os réus? Quem lhe despertou toda essa sede de justiça? De onde saiu esse ódio incontrolável contra os réus do “mensalão”? Por que essa fúria de condenar inclusive os juízes que absolveram alguns dos réus? Não se viu tanto sentimento de justiça, por exemplo, quando o Supremo Tribunal Federal, por insuficiência de provas, ABSOLVEU integralmente o ex-presidente Fernando Collor que era acusado desses mesmos crimes de corrupção e que até havia sido condenado no processo de impeachment!

         Mas há ainda um detalhe, verificado no momento em que o ministro Ricardo Lewandowsky exercia o seu direito de voto na Capital paulista, que realmente chama a atenção e pode ser algo revelador. Um mesário deu-se o direito de fazer chacota, e perguntou pateticamente ao ministro se naquele dia ele já havia “abraçado o Zé Dirceu” – petista mais famoso do processo, condenado pelo STF mas absolvido pelo próprio Lewandowsky.

            O curioso é que, arrependido dessa grosseria com o ministro, o mesário procurou o magistrado na sua casa e lhe apresentou um pedido de desculpas, entregando-lhe uma carta. Nessa carta, além das escusas normais, o serventuário da Justiça Eleitoral explicou que seu ato foi mesmo leviano e impensado, disse que “fugiu de sua própria razão”, pois tentou ridicularizar o ministro estimulado por alguns repórteres que, naquele momento, instigaram-no a dizer alguma coisa ao homem que havia absolvido o petista Zé Dirceu.

            Tanta instigação da mídia só pode dar nisso mesmo! Quem é que enfiou na cabeça desse moço que todos os réus do mensalão deveriam ser condenados? Quem é que o convenceu sobre a necessidade de punir com rigor o petista famoso a que ele se referiu? Quem é que lhe assanhou o cérebro a ponto de levá-lo a ironizar publicamente o ministro do STF? Enfim, quem é que o “tirou da razão”? Não sei não, mas fica cada dia mais claro que a imprensa teve um papel estranho nesse julgamento. É impressionante a velocidade com que se fabricaram heróis, vilões, mocinhos, bandidos, tolos e tolices!

           Não é à toa que alguns analistas viram no julgamento do “mensalão” um certo “clima de fla-flu” – intensamente carregado de emoções: com vitórias, derrotas, comemorações e lágrimas. Ou seja, um clima muito próprio para o campo do futebol, mas pouco recomendável para o terreno dos julgamentos judiciais, que devem ser discretos, equilibrados, independentes, serenos, imparciais e, sobretudo, justos. Mas exigir justiça num julgamento midiático como foi esse ‘mensalão” talvez seja exigir demais – ou muito romântico.

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