Ciências humanas e “síndrome fossória”

            O CAMPO das ciências humanas em geral, ou ciências da sociedade – que Dilthey chamou também de “ciências do espírito” em oposição às “ciências da natureza” -, é naturalmente suscetível de influências ideológicas – e nem poderia ser diferente num campo do saber em que o sujeito que conhece se confunde com o objeto conhecido – ou seja, o homem que investiga os fenômenos sociais, no limite, investiga a si próprio e o seu meio. Logo, a influência das ideologias, entendidas aqui como sistemas de ideias, é algo mesmo muito natural, portanto, algo que abre campo para as crenças, para as visões particulares do mundo, para as opções pessoais – tão propícias ao florescimento dos dogmas.

            Por outro lado, como os sistemas de ideias são diversos (e talvez até infinitos), como as visões de mundo são variadas, enfim, como as ideologias são muito diversificadas, para combater os sistemas dogmáticos surgem, também no campo das ciências humanas as teorias, discursos, métodos e correntes que se dizem pluralistas e antidogmáticas – com isso, os métodos e visões se multiplicam, disputando as “verdades científicas” no campos das ciências da sociedade.

            Penso que a complexidade do real, bem como a variedade dos dogmas e ideologias, levaram os cultores das ciências humanas a lançar mão de uma terrível infinidade de métodos, de uma pluralidade estertórica de teorias, de um mundaréu de conceitos que acabaram criando sistemas plurais de ideias, distribuídos quase que à proporção de um sistema teórico para cada pensador. Esse pluralismo vertiginoso, chamado muitas vezes de “relativismo desconstrutivista”, com suas incontáveis premissas e múltiplas verdades, instalou-se definitivamente naquilo que agora chamam de pensamento pós-moderno.

          Muitos desses sistemas teóricos, que caracterizam o pluralismo da pós-modernidade, são realmente profundos, coerentes, bem fundamentados e até verdadeiros, mas nem sempre são úteis. Em alguns casos são úteis apenas para os próprios pensadores, que escrevem e apregoam suas teses, que se deleitam com as próprias “descobertas” e o próprio saber, numa atividade talvez mais lúdica do que científica. Até por isso é que a filosofia prática e a racionalidade estratégica se impuseram com especial ênfase no século XX e os filósofos e teóricos começaram a questionar a utilidade dos seus variados saberes.

             Não bastasse essa profusão de ideais e teorias no campo das ciências humanas,  fato é que os cientistas da sociedade – que comunicam suas descobertas e verdades através da linguagem – costumam elaborar e transmitir o conhecimento por meio de um discurso tão hermético, e um conjunto tão complicado de premissas, pressupostos, leis e conceitos que, não raro (pelo menos para a minha inteligência mediana e talvez medíocre), tornam seus sistemas de ideias quase que ininteligíveis – um campo verdadeiramente inexpugnável.

           Não raro, os trabalhos acadêmicos abusam dessa linguagem hermética, cifrada, utilizando conceitos e noções notoriamente arbitrários, compreensíveis apenas a seus próprios autores. Os intelectuais, pensadores e cientistas das humanidades parecem andar esquecidos daquela célebre advertência de Ortega y Gasset para quem “A claridade é a gentileza do filósofo”; e se comunicam por meio de uma linguagem tão inacessível que mais parece ocultismo do que ciência.

           Esse filósofo espanhol tinha como ponto de honra a “porosidade da ciência”, que, segundo ele, deveria manter-se aberta a todas as mentes. Para Ortega y Gasset, os pensadores não deveriam interpor “entre o tesouro de suas descobertas e a curiosidade dos profanos o dragão medonho da terminologia hermética”. Para ele, o filósofo deve “levar até ao limite de si próprio o rigor metódico quando investiga e persegue suas verdades, mas, ao emiti-las e enunciá-las deve evitar o uso cínico com que alguns homens de ciência se comprazem, como Hércules de feira, em ostentar diante do público os bíceps do seu tecnicismo”.

           No ambiente acadêmico, por exemplo, é muito comum aquela tentação, conhecida por “eruditismo”, de fazer referência a inúmeros autores, utilizar bibliografia em muitas línguas, concatenar várias ideias, mobilizar uma infinidade de teorias, conceitos, noções e sistemas, em verdadeira miscelânea ou “babel metodológica” – com pouco ou às vezes nenhum resultado verdadeiramente científico. Assim, o methodo que é definido exatamente como um caminho, e que deveria ser utilizado para chegar a alguma descoberta confiável, acaba transformando-se num descaminho que não leva a lugar nenhum. Não por acaso, certo filósofo da ciência, Paul Feyarabend, escreveu um trabalho sugestivamente intitulado Contra o método!

          A metodologia fundamentalista e a parafernália conceitual, que enveredam pelos subterrâneos da investigação teórica, especulativa e metafísica, quase sempre incorrem numa espécie de “síndrome fossória” (ou “síndrome da minhoca”) em que o investigador se aprofunda tanto na direção subterrânea do conhecimento que perde o contato com a superfície e com a realidade histórica, onde, afinal, estão a luz, o oxigênio e a vida. É assim que muitos teóricos escrevem de si para si, num solilóquio acadêmico e num autismo conceitual indecifráveis, cujas conclusões e teorias têm reduzidas consequências práticas e uma utilidade bastante discutível.

           E isso acontece tanto à direita quanto à esquerda. Os pensadores de direita sempre preferiram mesmo a cultura ilustrada e o idealismo das investigações teóricas e metafísicas, que têm pouco impacto e nenhum potencial transformador diante da realidade social vigente; e muitos intelectuais de esquerda acabaram abandonando o chão da história, sepultaram a XI tese sobre Feuerbach, e a perspectiva concreta da práxis, preferindo enveredar pelos subterrâneos do conhecimento erudito ou pelas profundezas da consciência humana.

         Antes que me acusem de fazer aqui o “elogio da superficialidade” no campo das ciências sociais, seria importante refletir sobre o efeito conservador que têm as porfias teóricas, a especulação metafísica e o eruditismo estéril que, além de tudo, comprometem o sentido e a realidade das investigações científicas – e muitas vezes nem sequer provocam o pensamento; obscurecem-no. Seria mesmo interessante avaliar se o “teorismo científico”, o “eruditismo acadêmico” e o “fundamentalismo metodológico” têm algum impacto significativo e útil sobre a vida social, ou se contribuem apenas para manter o cientista naquela redoma de vidro onde permanece confortavelmente instalada a intelligentsia conservadora.

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