O câncer do ditador

            LOGO após a divulgação do câncer na laringe do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nem bem o doente havia assimilado o impacto do diagnóstico terrível, e já havia na rede mundial de computadores inúmeras manifestações de internautas que, revelando um óbvio desprezo pelo drama e pela tragédia pessoal do ex-presidente brasileiro, mandavam-no tratar-se na rede pública de saúde (SUS). Há notícia até de que fizeram uma campanha nesse sentido por meio do Facebook. Em lugar da solidariedade, portanto, esses internautas preferiram a ironia e o descaso, traindo até uma certa satisfação com a desgraça do ex-presidente.

            Por quê? Esse tipo de manifestação rancorosa costuma ocorrer (e é compreensível que ocorra, porém, mesmo assim injustificável!) quando adoecem ou quando morrem ex-ditadores sanguinários, como, por exemplo, um Joseph Stalin, um Adolf Hitler, um Augusto Pinochet, um Emílio Garrastazu Médici e outros. Não é comum em caso de presidentes que governaram dentro da ordem democrática, respeitando as liberdades e as leis, preservando as instituições, enfim, afirmando os valores do estado democrático de direito, como foi o caso de Lula.

          E muito menos se se considerar que o ex-presidente brasileiro, agora atingido pelo câncer, além de governar democraticamente, teve um extraordinário desempenho governativo nas áreas social, política, econômica, das relações internacionais etc., saindo do governo como o presidente da república mais bem avaliado da história do país – e com o maior índice de popularidade de que se tem notícia.

            Não há como apurar, mas é bem provável que muitos desses internautas, que agora se refestelam com o sofrimento de Lula, de alguma forma já utilizaram ou utilizam ainda a rede pública de saúde, seja como simples usuários, seja como parentes de usuários, fornecedores da rede, administradores, médicos, funcionários, enfermeiros etc. Todos deveriam saber que, na verdade, não foi o Lula quem criou o SUS, e nem era o Governo Federal que o administrava, mas foi ele o presidente que fez o mais notável esforço financeiro e político para tornar esse sistema um serviço de qualidade, acessível a todos os brasileiros.

           Além do mais, e acima de tudo, há o aspecto pessoal e humano da tragédia que precisa ser entendido, respeitado, e até enfrentado coletivamente, com manifestações de solidariedade, pois o câncer é um inimigo comum, aliás, um inimigo que nos ameaça a todos de maneira implacável. Não há, portanto, nenhuma explicação para as manifestações desses internautas que foram tão insensíveis e tão cruéis (como o próprio câncer) diante da infelicidade e da angústia de Lula. Não há como explicar, de maneira racional e razoável, tanta insensatez!

          Por que essa ironia toda, essa leviandade, e até uma mal disfarçada euforia com a tragédia pessoal do ex-presidente? Seria pura maldade, ou por trás dessa maldade haveria algum outro sentimento que a explica? Não sei não, mas o preconceito é um sentimento rebaixado, e assim também a ignorância, que costuma andar de mãos dadas com a maldade!

             Ou pode ser que Lula tenha sido mesmo um ditador. Pois foi implacável (momo um ditador) contra as injustiças sociais e contra o preconceito de classe. Atacou cruelmente o preconceito pequeno-burguês daqueles que diziam que um simples operário, sem diploma de “doutor formado”, jamais poderia governar o Brasil. Foi um ditador igualmente cruel contra a ignorância, pois criou duas dezenas de universidades públicas, instalou vários cursos universitários gratuitos, instituiu o sistema do ProUni, investiu intensamente na educação fundamental e expandiu o ensino técnico por esse Brasil todo. Enfim, foi cruel (como um ditador) contra algumas mazelas históricas deste país.

           Mas, apesar disso tudo, apesar dessa ditadura obstinada de Lula, que não mediu esforços e declarou guerra contra a fome, contra a desigualdade, a exclusão e o obscurantismo social e político, parece que o preconceito e a ignorância de alguns ainda conseguiram sobreviver – e conseguiram ser maiores, muito maiores, que o próprio câncer do “ditador”.

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