Alienação

           PODE-SE dizer – dizem os entendidos! – que a doutrina de Marx se mostrou equivocada em algumas de suas previsões. De fato, ao contrário do que dizia o autor de O capital, a classe proletária não realizou nem é mais a única classe capaz de realizar a revolução; não há sinais de que o direito e o Estado possam desaparecer um dia, como previa Marx; e as massas nunca revelaram qualquer capacidade de superar a própria alienação – como o filósofo alemão também imaginava que elas pudessem fazê-lo por si só, através da luta social.

           Contudo, não se pode negar que, apesar de alguns equívocos, Marx legou um importante arsenal de conceitos e categorias sem os quais não seria possível compreender a lógica e o funcionamento da sociedade moderna capitalista. Estão entre esses conceitos básicos a noção de dialética, de processo de trabalho, de materialismo histórico, de relações de produção, de mais-valia, práxis e alienação. Ao contrário do que pensam aqueles que apressadamente proclamam a “morte do marxismo” – e proclamam essa “morte” mais por preconceito ideológico do que propriamente por pressa -, muitas das categorias marxistas são mesmo indispensáveis para entender o capitalismo e a realidade contemporânea.

               Uma dessas categorias do marxismo é o conceito de alienação. O filósofo dizia que ela tem origem, fundamentalmente, em duas causas estruturais, quais sejam: a expropriação dos meios de produção e o consumo exagerado.

              No entender de Marx, o homem é um ser que produz, necessariamente. Isto é, a produção de coisas e objetos é uma dimensão necessária do homem – faz parte da sua condição existencial. Assim, o homem produz objetos, produz suas próprias condições materiais de vida e, com isso, produz a si mesmo. Está sempre produzindo: objetos, conhecimento, arte, cultura, ciência… Mas, no instante em que passa a predominar o princípio da propriedade privada dos meios de produção, o homem produtor acaba afastado (alienado) de sua própria obra, pois ela se transforma em mercadoria apropriada por outrem, ou seja, apropriada por aquele que controla o processo produtivo.

             A alienação (afastamento ou estranhamento) ocorre, portanto, no momento em que o homem perde o domínio sobre as coisas que ele próprio criou. Nessa hora, ele acaba subjugado pelas coisas que produziu, já que elas vão proporcionar o lucro àquele que detém a propriedade dos meios de produção, aquele que controla o processo produtivo e que, por isso, controla também a força de trabalho do homem criador – dominando-o e apropriando-se de sua criação.

            Um outro aspecto dessa expropriação do trabalhador está no fato de que seu salário é definido pelo mercado, e não pelo que ele produz, nem pelo tempo que trabalha, nem muito menos em razão de suas necessidades ou habilidades. Assim, a força de trabalho se transforma numa autêntica mercadoria cujo valor é fixado pelas forças de mercado. Logo, o salário do tralhador não resulta, como às vezes se diz, de uma “negociação livre” entre o empregador e o empregado. O valor do salário, ou seja, o valor do trabalho, já está preestabelecido e é imposto unilateralmente ao trabalhador, alienando-o de qualquer participação nesse processo definidor de seus ganhos (salários).

        Nesse sentido, é interessante notar também que a transformação do “valor do trabalho” numa autêntica mercadoria completa o processo de alienação e de reificação (coisificação) do homem trabalhador na sociedade capitalista. Pois, se o trabalho, que define a relação do homem com a natureza, e com o mundo, se transforma numa mercadoria, o homem que trabalha segue também esse mesmo destino. Assim, trabalho e trabalhador nada mais são do que simples objetos do processo produtivo, cujos valores são definidos pelo mercado – como qualquer mercadoria.

               O outro fator de alienação, ainda segundo Marx, é o consumo intenso. A expansão deste último é uma exigência da própria produção, ou seja, o aumento da produção depende também do aumento do consumo. Com isso, a sociedade capitalista se vê obrigada a criar um consumo artificial, criando necessidades artificiais para continuar produzindo. Aqui o homem se vê novamente subjugado pelas coisas que produziu, consumindo-as apenas pela necessidade de consumir, e não porque elas tenham um valor real de uso ou porque possam atender a uma necessidade real.

            Os tempos atuais, com o brutal desenvolvimento das tecnologias, deram plena razão a Marx quanto ao problema da alienação humana pelo consumo expandido. Os produtos (mercadorias) são consumidos e descartados com uma velocidade incrivelmente vertiginosa; o homem está cada dia mais deslumbrado com as novas bugigangas do mercado; o consumo é desesperado; os artefatos eletrônicos então, se transformaram no novo ópio da humanidade. E chega a ser até mesmo patética a dependência das pessoas em relação aos produtos da era digital. É chocante ver a infantilização do homem, deslumbrado com seus brinquedinhos eletrônicos – aliás, o próprio Marx já afirmava que a tecnologia viria mesmo para dominar o homem e destruir a natureza.

          A alienação humana, enfim, deita suas raízes no ato de produzir e no ato de consumir. Como superar essa contradição profunda em que está mergulhada a sociedade moderna de consumo? Como realizar a emancipação humana que é, no fundo, o resultado de um processo de desalienação? Por enquanto, não há nenhuma resposta para tais questões no âmbito da modernidade capitalista. E não se vê também nenhuma utopia que, neste momento, pudesse encarregar-se das respostas a essas contradições do capital, apontando os caminhos da superação.

              Os dicionários definem alienação como perda e separação. Estar alienado é perder ou estar separado de alguma coisa. Assim, aquele que aliena, que vende uma coisa qualquer, separa-se dessa coisa vendida, isto é, perde o objeto alienado; aquele que se aliena, separa-se de sua própria consciência social, ou seja, perde a clareza e até a higidez psíquica sobre seu papel dentro do processo histórico. Nesse sentido, a alienação generalizada é uma “perda coletiva”, quer dizer, sintoma mais ou menos óbvio de uma “sociedade perdida” – separada de si mesma.

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