Dialética

            O TERMO dialética é daqueles que os gramáticos chamam de “plurívoco”, isto é, trata-se de uma palavra capaz de designar semanticamente várias realidades. A verdade é que ao longo do tempo o termo foi assumindo conotações diferentes, mercê das variadas reflexões com que inúmeros pensadores procuraram estabelecer-lhe a ideia, a função ou o sentido.

              Na Antiguidade Clássica, sobretudo na obra de Platão, a dialética ligava-se à ideia de “diálogo” ou “diálogo dos contrários” – (note-se que “dialética” e “diálogo” têm a mesma origem etimológica, um radical idêntico). Por isso mesmo, a palavra passou a ser empregada para designar a “arte da argumentação”. Num sentido muito semelhante, Aristóteles identificava a dialética com a “lógica”, isto é, com a arte da retórica a partir de premissas meramente prováveis, incertas ou apenas verossímeis (portanto, uma “lógica menor”).

            E é na própria Antiguidade que se costuma apontar aquele que ficou conhecido como o “pai da dialética”, Heráclito de Éfeso, para quem a realidade é naturalmente contraditória, está em constante mudança, cujo “devir” histórico somente poderá ser compreendido por meio de um pensamento também contraditório, um pensamento dinâmico “que pensa as contradições a partir das próprias contradições”, quer dizer, um estilo dialético de pensamento.

               Na modernidade, assumindo as premissas sustentadas por Heráclito, o pensador alemão F. Hegel seguiu afirmando que a realidade é mesmo intrinsecamente contraditória e está em constante transformação. Assim, para compreendê-la é preciso um modo de pensar também dinâmico, capaz de apreender as mudanças que, afinal, constituem a existência de todas as coisas.

           Hegel concluiu que tudo o que existe, existe em permanente mudança, logo, o conflito, como dizia também Heráclito, está na origem de tudo o que compõe a realidade. Daí a necessidade do pensamento dialético, único capaz de articular as contradições, as mudanças e a instabilidade do real, sintetizando-as numa explicação superadora na direção daquilo que o próprio Hegel chamava de “saber absoluto”.

       E foi exatamente a partir do pensamento hegueliano, procurando situá-lo historicamente, que Marx afirmou a importância de um modo de pensar dialético para explicar as dimensões conflitivas da realidade bem como a sua impermanência. Às ideias de Hegel, Marx acrescentou aquilo que viria a ser as bases da sua filosofia, o materialismo dialético, ao dizer que o sujeito compreende a realidade a partir de sua situação histórica, ou seja, a partir de suas condições materiais; além disso, acrescentou que o sujeito não apenas apreende a realidade, mas modifica-a também.

         Vale dizer: a realidade constitui o homem e o homem constitui a realidade – dialeticamente. Com isso, Marx vinculou a noção de praxis, entendida como o agir humano consciente e transformador, ao conceito de dialética, concluindo que o sujeito conhece e ao mesmo tempo intervém na realidade, ou melhor, o homem conhece porque intervém na realidade, transformando-a.

          No campo econômico, segundo Marx, o trabalho é, por excelência, um agir consciente por meio do qual o homem produz suas condições materiais e se reconhece no mundo. Como o mundo do trabalho é um mundo conflitivo, o processo de trabalho está cheio de antagonismos e apenas a classe trabalhadora é que vivencia materialmente, e suporta, essas contradições. Contradições que, afinal, fazem parte da realidade. Logo, é precisamente a classe trabalhadora aquela que seria capaz de impulsionar as mudanças necessárias à superação das contradições de um mundo materialmente construído, isto é, o mundo burguês.

             Desse modo, ao reconhecer o papel transformador do trabalho a partir da noção de praxis, a dialética marxista passou a ser entendida também como um projeto revolucionário, o que empresta à dialética uma dimensão axiológica, projetando-a, por conseguinte no undo moral dos valores – daí o seu caráter inerentemente, e permanentemente, polêmico.

            Como se vê, ao longo do tempo a dialética já foi identificada (1) com a arte do diálogo e da argumentação, (2) com a lógica, (3) com a síntese dos opostos, (4) com um estilo de pensamento, (5) com um método para captar e compreender a realidade dinâmica e contraditória, (6) com o modo de compreender a realidade a partir da situação histórica do sujeito, (7) com o modo de conhecer, intervir e mudar a realidade, e, por fim, (8) identificada também com as estratégias revolucionárias de transformação da sociedade burguesa. Mas é interessante frisar que em todos esses sentidos, desde o início, da Antiguidade até os dias de hoje, o termo dialética esteve sempre associado à ideia de “conflito”, de “mudança” e de ação transformadora do homem.

              Seja como for, digam lá o que disserem a respeito da dialética, uma coisa é certa: se a realidade é mesmo inconstante, instável; se ela tem contradições intrínsecas; se ela muda permanentemente a partir dessas contradições e dos conflitos; se ela tem, portanto, uma dimensão dinâmica; e se o homem conhece e intervém na realidade, transformando-a, então o modo de pensar dialético é mesmo indispensável se quisermos, de fato, compreender aquilo que nos cerca em todas as suas dimensões e contradições, especialmente a “dimensão da mudança” que parece estar na base ou na origem de todas as coisas.

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