Lulismo

       O EXTRAORDINÁRIO desempenho de Luiz Inácio Lula da Silva à frente da Presidência da República em dois mandatos consecutivos foi realmente um feito histórico – impressionante. Atesta-o seus incríveis 87% de aprovação popular e irrisórios 4% de rejeição. O reconhecimento que ganhou mundo afora como o sindicalista que governou o Brasil com a habilidade e a competência de um verdadeiro estadista, é outro indicador de que suas realizações, como presidente da república, merecem ser vistas, no mínimo, com respeito.

            Dentre essas realizações bem-sucedidas de Lula na área da educação, da saúde, do crescimento econômico e da política externa, talvez merecesse destaque o fato de que suas políticas socioeconômicas foram capazes de fazer com que mais de 20 milhões de brasileiros saíssem da miséria e outros 20 milhões ingressassem na classe média. É como se disséssemos que as políticas sociais de Lula tiraram 5 Uruguais ou uma Argentina inteira da miséria e da pobreza – não é pouco, convenhamos!

                Mas, uma coisa é o Lula, com seus feitos históricos, talvez inigualáveis até hoje na história da república brasileira, outra coisa é aquilo que os analistas políticos, como André Singer, passaram a chamar de “lulismo”, para designar não só o estilo do presidente, mas, sobretudo, as alianças políticas do PT com as oligarquias e com partidos conservadores de direta, e até de extrema direita; para designar a política monetarista de juros altos que continuou enriquecendo os bancos; as políticas sociais que atenderam com eficiência às necessidades mais urgentes dos pobres, mas mantiveram, e até legitimaram, a perversa ordem social, política e econômica ainda vigente; e, por fim, as relações muito superficiais do governo com a classe trabalhadora, pois o governo petista não reservou nenhum papel para os trabalhadores e movimentos sociais no projeto de desenvolvimento levado a efeito pelo presidente.

            Enfim,  o “lulismo” parece ser mesmo uma engenhosa combinação entre as ideias e propostas da direita e da esquerda, conciliadas pelo carisma de um líder que soube administrar o antagonismo de classes, atendendo ora as reivindicações populares ora aos reclamos das elites. Por tais razões é que uma parte da esquerda chegou a romper com o PT e com o governo de Lula. É fácil perceber que a presidenta eleita, Dilma Rousseff, não demonstra nenhuma disposição para superar, muito menos de romper com o “lulismo”.

          E deve haver motivos para isso. Segundo ela própria, é preciso aprofundar as políticas sociais de Lula, e não abandoná-las. Pois elas ainda não atingiram nem beneficiaram todas as camadas de brasileiros necessitados. E para fazer isso será preciso seguir com as mesmas estratégias, leia-se, com o mesmo “lulismo”. Num “presidencialismo de coalizão” não sei se seria possível governar de outro jeito; implementar profundas reformas sociais sem a contrapartida da burguesia, que controla o parlamento, os ministérios e os cargos logo abaixo.

              Muitos dirão que num país capitalista como o Brasil, de dimensões continentais, o “lulismo” era a única maneira de seguir fazendo importantes reformas no campo social, pois não haveria como governar um país capitalista, desse tamanho e com tantas contradições, buscando os objetivos ou a ortodoxia socialista. Além do mais, dizem, é preciso governar com um Congresso majoritariamente de direita e extremamente conservador, sem contar as dificuldades que representa o notório “fisiologismo” do parlamento brasileiro, o que muitas vezes leva o Executivo a fazer negociações de duvidosa moralidade para aprovar leis e projetos, tal como ocorreu com o governo Lula e com todos os governos anteriores.

        Se todos esses argumentos usados para justificar o “lulismo” forem mesmo procedentes, então qualquer esperança de transformação estrutural (definitiva) no campo social, político e econômico está mesmo – como sempre esteve -, nas lutas e na revolta do povo, ou seja, na base da sociedade onde se organiza a classe trabalhadora, com seus sindicatos, e onde atuam os movimentos sociais, com suas lutas em torno de uma pauta genuinamente de esquerda. O “lulismo” provou que é realmente possível governar para os pobres com crescimento econômico; falta agora provar que é possível superar a estrutura oligarca da sociedade brasileira.

           É preciso ainda um certo recuo histórico para ver melhor, e analisar com mais acuidade, o que foi, o que fez e o que nos legou as políticas do “lulismo”. É cedo para emitir um parecer conclusivo. O “lulismo” é um fenômeno histórico e político que está ainda em andamento – seu presente e seu futuro estão em construção. Mas uma coisa é certa; uma coisa pode-se dizer: os governos do presidente Lula da Silva foram um divisor de águas na governança deste país; um divisor entre as políticas tradicionais voltadas apenas para as camadas de cima, e as políticas que também incluíram também os de baixo.

            Se há algum mérito nessa inclusão dos pobres – do ponto de vista social, econômico, político e sobretudo ético -, esse mérito ninguém vai tirar do “lulismo”. É, por assim dizer, sua “marca registrada”; seu feito histórico. Se suas políticas, suas alianças e realizações são polêmicas, ótimo. O que seria da política sem polêmica? Sinal de que o “lulismo” faz o que faz, mas submete-se ao contraditório, à critica, à contestação – inclusive interna. O que é a democracia senão isso?

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